domingo, 19 de junho de 2011

Seu José Augusto Pessoa

Um senhor de banho tomado, todo arrumado, me pára na rua; na rua parada, afinal hoje é domingo, e domingo o povo pára. Seu José se apresenta e pede para que eu ande devagar com os cachorros. Ele fala que os cães também cansam, assim como a gente. De cansaço Seu José Augusto entende mais que eu. Sou todo silêncio e atenção em olhos arregalados para o Seu José. Domingo ao mesmo passo que me agonia me intriga. Em cada encontro comigo ou com o próximo, me sinto mais distante deste mundo. Seu José pergunta se tenho pai e mãe. Eu até os tenho quando quero. Fico pensando se este senhor que mal consegue falar ainda tem filhos... Seu José Augusto Pessoa, sobrenome do meu poeta favorito (foi a única coisa que pensei quando ele disse seu nome), disse que morava na outra rua, numa casa branca, ou era amarela, não lembro direito. Me perdi pensando em como este senhor chegaria do outro lado do quarteirão. Distâncias e estâncias. Ser a própria casa quando tudo fica longe da chegada. Foi o que aprendi hoje, mas parecia saber antes. Seu José Augusto Pessoa fala num tom baixinho que eu fique com Deus e que toda providência divina tome conta da minha vida. Como vou dizer para este velhinho que não acredito em deus algum?



Ígor Andrade

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3 comentários:

Luiz Libório Alves disse...

Tão hoje.

Lara Amaral disse...

Também nunca sei o que dizer, só deixo um sorriso triste.

Marcelino disse...

"Ser a própria casa quando tudo fica longe da chegada": dá pra fazer um poemaço, dá pra colocar em perfil de rede social, dá pra iniciar outro texto em prosa, dá pra colocar na boca de personagem de teatro: dá pra muito mais esse período que construíste. Lindo demais.