quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Confusão não é confundir


Queria o amanhecer
antes.
Ela não acorda tão cedo.

Fico esperando o "bom dia".
Eu durmo até tarde.

Nossa vida se encontra
no céu
de depois.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 23 de março de 2015

Segunda de segunda


Tão confortável
quanto a morte

a tarde
se espreguiça
em silêncio.

Um adeus
sem deus

num paraíso alagado.

Um pedido
esquecido
e afogado.

Choveu!
Nem vi.

Que todo bocejo
não seja
enganado
pelo sono perdido.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 18 de março de 2015

Calar sem procurar


Sempre que posso
observo a tarde.
Sempre que passo
sou tarde.

Quase nunca norte.
Muito do mesmo:
Morte.

Sempre que posso
absorvo a tarde.
E me encontro cedo.

Preciso viver mais.
Procura-se medo!


Ígor Andrade

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quarta-feira, 11 de março de 2015

Ritalina


Parei no tempo
hoje
só para não deixar o tempo me parar.
Só para perceber que é parando
que a gente segue em frente.

A dor, o sono, a fome
e eu dormente.

Tudo é caminhar!

A vida vai passar
antes que eu perceba.

E antes que eu perceba
muita gente vai passar também.

Sou o Zé Ninguém
que todo mundo acha que conhece,
que todo mundo sabe que não entende.

Quem me compra não me vende.

Sou objeto abstrato no surrealismo de uma tarde perdida.
Uma tarde fodida que me fode a cabeça.

E é meu juízo que conta.
É meu juízo que não me conta
o que quero descobrir.

Um dia paro de dormir.
Daí vou só sonhar.

Executar antes da execução é uma obsessão digna dos poetas pobres.


Ígor Andrade

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terça-feira, 10 de março de 2015

Às vezes


Às vezes me sinto como um relógio quebrado
que marca o tempo sem calcular a vida.

Ás vezes me sinto como um móvel usado
que mesmo quebrado sustenta umas coisas.

Ás vezes me sinto como um fim de tarde
quase acabado mas com uma certeza de amanhã.

Às vezes não me sinto direito
e fico escrevendo abobrinhas por aí.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Um poema de ontem cedo ou o cedo ontem de um poema


Dormi mal.
Acordei incompetente.
Minha vida é um solvente
e o dia não tem sol.

Me sinto só
como sempre
e como sempre
não estou só.

Só isso já seria meu melhor escrito!

Tenho dito.
Tenho feito?

A vida não tem direito
de escrever por mim.
Preciso dormir
mais e melhor.

Ou quem sabe tomar algum remédio pra memória...

Tento lembrar dos pesadelos que tive.

Em vão.
Eles vão
acabar me matando.

E por falar nisso...
estou morrendo
desde que nasci;
desde que escrevi
meu primeiro poema
(de amor).

Não uso terno
e cada tema
de cada dia
tem seu louvor.

Pronto, assumi!
Mas não vou assumir
nenhuma religiosidade.
Não acredito em nada
que não possa me tocar.

Não vou sumir
enquanto não somar.
Não vou dormir
enquanto não sonhar.

Não sei levar desaforo pra casa.
E tudo que tem asa não é obrigado a voar.

Sou humano
demasiadamente humano
e vôo.
Porque aprendi a viver no céu.

Talvez meu papel
neste mundo
seja apenas duvidar
de quem duvida de mim.


Ígor Andrade

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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Por isso escrevo


O tempo se arrasta.
O tempo me afasta
dos poucos que amo.

Por isso escrevo.

Por isso eu nego
e não devo
nada pro dia de amanhã.

Antes da manhã
a noite nunca é a mesma.
A lesma
sou eu
quando sei o que quero.
Não espero.
O que sinto não pára.

E sempre pareço outro cara
que não tem cara
para mentir sobre o que sente.

Estou cansado.
Estou ficando doente.
E não consigo dormir.
Acima de tudo
logo abaixo de todos
não sei fingir
fingimento.

Lamento
o que não lamento.

Um tormento lento

na minha cabeça
incomoda os fantasmas
de quem não conheço.

É preciso lembrar
que sempre esqueço
onde moro.
Quando não peço paz,
imploro
por uma madrugada justa.

Essa morte diária de toda noite me custa
muitas vidas...

E amanhã nasço de novo.
A galinha antes do ovo.
E tudo que é confusão.

Já não se fazem dores como antigamente!
Eu nunca morro em vão.

Antiga mente a minha
que sabia o que era vida.

Hoje a vida não tem vida
no orgulho dos cães cansados.


Ígor Andrade

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Tudo cinza e muito claro


A tarde passa
por mim.

Tudo cinza
e muito claro
ao mesmo tempo.

Não tenho tempo
a perder.
Deixo o que me deixa
e procuro esquecer
o pouco que tenho.

Tenho pouco
e muito amor.
Muita coisa a dizer
sobre o infinito que sinto.

Não minto.
Aperto o cinto
porque emagreci.
Mas assumo que longe dela eu engordo.

Só sei ser assim:
intenso, amante, perturbado e apaixonado.
A vida tem me mostrado
por quem vale a pena viver.

E vou viver
com ou sem minhas fraquezas...

Ponto.
Estou pronto.

Todo homem forte
descarta a sorte
e encontra um norte
quando ama.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Tratado sem tratamento


Primeiro você tenta entender o dia.
Depois tenta entender a saudade.
Aí descobre a dona da saudade.
(Porque toda saudade tem dona.)
E você se perde.

Eis o sentido da vida:
Sentir falta.
Encontrar-se em cada desejo.
Lembrar de abraçar o beijo
imaginário.
Morar no outro
sem sombra
e com sobra.

A beleza pára
quando você tenta entender o dia
sem o seu amor.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

E o mundo ficou quieto


E o mundo ficou quieto.
Ou nem tanto.
Esqueci de lavar o prato
e engoli o pranto
que já não existe mais.

O que foi ruim
deixo para trás.
Pra mim tanto faz
quem não fez
o que quis de mim.

Ando meio assim:
sem andar muito.
Amo muito
ou esqueço o que vou fazer.

Quero crescer, morrer, nascer...
Não sei ser
de outro jeito.
Eu fecho a cara para explodir o peito
de desejo.

Quero a boca
o colo
e o beijo
da mulher de minha vida.

Minha ida
para a sociedade dos poetas amantes!

A vida sem os seus conservantes
perde a cara e a hora.

Eu não posso esquecer do que sinto agora.

O mundo lá fora
é podre demais.
Encontrei a paz
sem querer.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Uma ciranda qualquer


Merecer o que
ninguém perece.
Perecer o que
ninguém esquece.
Esquecer o que
ninguém merece.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O panteão da minha mente


O oceano da noite
é uma ponte
silenciosa e estranha.

Já não estou mais aqui.

Meus fantasmas caminham
no Jardim de Luxemburgo...
A morte encontra uma rosa
e pensa na vida
que não teve.

Ninguém sabe.
Eu já tive uma vida.
Já fui assassino e suicida.
Moro na rua dos esquecidos.

Nunca serei lembrado!

Não quero mais a guerra dos humanos.
Mas preciso da batalha dos escritores.

Muitos amores.
Muitas mentiras.
E ninguém me tira
da minha caverna.
Vivo num inverno que eu inventei.

Abençoada seja toda escuridão.

As sombras sobram
num sobrado de felinos moribundos.

O vazio e todo ódio
existe na pureza
do sorriso escasso.

Eu não posso.
Eu não passo.

A lágrima é uma meretriz.
Me leram em Paris
hoje.
E eu nem fiz
a barba.

Eu nunca quis
ir tão longe.


Ígor Andrade

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domingo, 25 de janeiro de 2015

Quem nasceu primeiro?


Acordei com um problema na cabeça.
Levantei com uma cabeça no problema.

O tema.
O lema.
A gema.
O ovo.
Não interessa.

Tudo que não faço me parece novo
e sem pressa.

Sou um homem perdido sem coração.

Queria coragem.
Só tenho visão.

Aflição
de afligir multidões.
Como esta rua vazia...

Tudo fazia
sentido
quando não sentia
o que sinto.

Se estou perto, minto.
Sou longe.

Sou um monge
sem deus.

Adeus, bela moça!

O problema não é você
nem eu.
Bela moça!
Nada se perdeu
mas alguém me encontrou.


Ígor Andrade

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domingo, 18 de janeiro de 2015

Ressaca sem (a)mar


O dia se arrasta.
O dia me afasta
de tudo que amo.
Eu não reclamo
e procuro passar com o dia.
Bem devagar.

Divagar
sobre a vaga
que perdi na faculdade de educação física.

A falta de nexo e química das relações humanas.

Não existe física na saudade.

Meu dia é confusão!

Os outros não vão
entender o que é o domingo pra mim.

O dia é assim:
quase noite.

Escureço!


Ígor Andrade

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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Só por hoje e agora


Hoje está tudo diferente.
O dia que sabe de mim.
Esqueço quem sou por um minuto
e o tempo não tem fim.

A caminhada continua.
Ninguém na frente de ninguém.
Peguei o trem para outro mundo.
Outro mudo que não escuta.
A vida é uma permuta de silêncios.

Não quero saber
de quem não quer saber
do que sei.

Nunca esquecerei do que não fui.

Hoje bem cedo acordei
com uma certeza
e nenhuma dúvida:
preciso de algo mais.

Tudo faz.
Tanto faz.

Eu quero aquela bruxa
que era meu sonho de consumo
da minha adolescência.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O desprezo é uma reza muda


Cada vez mais difícil escrever.
Cada vez mais difícil esquecer.
Quem sou.

Atordoado, largado e besta.
Espírito de leão aleijado.
Um pensamento dormindo numa cesta
de pão
velho.

E como sempre
os outros vão.
E eu fico
velho.

Quem eu quero perto
me quer longe.
Quem eu trato bem
me agrada por obrigação.
É isso ou fiquei retardado.

Não deveria, mas devo...
escrever no caderno que escrevo
todos os dias.
E todo dia é uma vida longa demais.
O que eu não faço é o que ela faz.
Não quero dizer mais nada.

Passo o dia pensando em como não pensar no dia que passa.

Sou facilmente esquecido
e esqueço como quem tem Alzheimer.

Mais um ano vai acabar
e eu sozinho como sempre
com uma cerveja na mesa
e umas folhas em branco na cama.

Minha cachorra sabe o que ama
e é uma boa companhia.


Ígor Andrade

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domingo, 14 de dezembro de 2014

Awake


Tem gente que morre no domingo.
Seres humanos que não dormem e também não vivem.
Tem gente que nasce no domingo
ou perde a virgindade enquanto os pais estão na praia.
Tem gente que passa o domingo dormindo
enquanto não sonha.
Tem domingo que tem gente.
Poesia dormente na calçada misteriosa
de uma vida sem graça
que não passa.
Tem o que existe.
Tem o dia.
E tem quem não escreve o que sente.
O verbo dos amantes
tem sol demais
e o silêncio do domingo
não está à venda.


Ígor Andrade

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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Aponeurose epicraniana


O tempo é suicídio.
E o seio do dia não tem forma.

É o corpo dessa rotina que me faz crescer.

Tenho tempo.
Perco tempo.

Todo calor de hoje será recompensado.

A esperança é o berço da desgraça
e o amor não importa mais.

Papai Noel morreu em Alcatraz
e as músicas natalinas me causam depressão.

Aquela sensação estranha de mar em fúria...

Cadê a motivação que estava aqui?


Ígor Andrade

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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Para o Mestre Fabio Rocha


(Leiam A Magia da Poesia.)


Poesia
não vende
porque não tem silicone.


Ígor Andrade

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Espacial não especial


O futuro me enche o saco
sempre antes de dormir.
Não posso fingir que sou
o que o outro pensa que quer.
Não quero essa vidinha
de planejar planos desse planeta.
Eu posso esquecer de tudo
ou tudo pode não me esquecer.
Não sei quem fui
e se fui já não sou mais.
O cão que corre atrás do próprio rabo.
O passarinho na gaiola do vizinho.
O rato morto na esquina da Costa Barros.
Não me interessa o deus da minha mãe.
Muito menos a doutrina militar do meu pai.
Eu apenas escrevo e não devo condomínio.
À noite eu morro e nem sei se quero acordar.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Não vi o degrau


O homem
sobe
quando sabe.


Ígor Andrade

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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Poema de segunda


O dia não é diferente.
Mas os olhos de criança se renovam.
A vida é invenção incansável.
Sempre.

Procurar um sorriso num desconhecido
não deveria ser obrigação de ninguém.
Ódio não faz bem pra pele.

Uma calçada sim outra não.
O mundo está cada vez mais sujo.
Muita gente pedindo perdão.

Deus é um carro do ano que buzina como se não houvesse amanhã.
A contramão da rua enfrenta a cegueira dos homens.
A miopia beira a faixa de pedestres.

Todo nascimento oculta poesia na maternidade dos silêncios.
Tudo que não cala não pode colar o vazio.


Ígor Andrade

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