quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Perto do Natal

Corro no fim da tarde
e corro além da tarde.

O fim é o fim
ou é o começo
de sei lá o quê.

Cansei as pernas
mas fortaleci a mente.
(Ou foi ao contrário.)

Atenção!

O crepúsculo também mente.
E eu pareço humano demais
quando escrevo sobre meu dia.

As crianças brincam na praça reformada
e os casais idosos caminham de mãos dadas.
Os pássaros desta praça desistiram de voar;
caminham despreocupadamente.

Troco minha poesia pelas asas enferrujadas.

Eu me deformo
nos poemas que se formam
em cada olhar perdido
alheio.

Por que corro sozinho no fim da tarde?

Eu não queria
mas às vezes sinto pena de minha solidão.

Paro na banquinha de sempre
e fico pechinchando livros clássicos de filosofia.
As livrarias também mentem
assim como o crepúsculo.

Por que anoitece em mim antes de escrever um poema desse?

Eu corro no fim da tarde.
Eu morro no fim da tarde.
Eu sou
um fim de tarde.

Escureço em mim mesmo
buscando um sol...

Perdi metade do dia
tentando evitar o sal
da comida sem gosto da secretária lá de casa.

Estou com fome
de qualquer coisa.
Qualquer coisa chega no fim
da tarde.

E sempre tenho a impressão
de que escrevo bobagens
de cara pro céu.



Ígor Andrade

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Um comentário:

Natália Campos disse...

Se são bobagens ou não, o que interessa é que você encanta com as palavras...sabe somá-las, dividi-las, multiplicá-las de tal forma que...poxa vida! Te admiro, querido. Um abraço apertado ;)