quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O que vi em um quarteirão

Tudo começa numa esquina
com o cheiro de batata frita
lembrando duma infância despreocupada.

Vejo um deficiente tentando atravessar
a rua.
A rua
me atravessa os olhos.

Um vira-lata me encara
como gente
e me sinto um cão.

(Lembro do livro
A Metamorfose
de Kafka...
O mundo será dos insetos.
Certeza disso.)

Num poste um cartaz:
Estrela Guia traz o seu amado.
E eu tenho certeza que alguém acredita nisso.

E tudo termina na outra esquina.

Atrás da vidraça da lanchonete
dois senhores grisalhos conversam
provavelmente sobre a vida que não tiveram.

(Falo sobre a vida
e sei que no quarteirão seguinte
na praça recém-inaugurada
os pombos serão indiferentes.)



Ígor Andrade

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3 comentários:

Luiz Libório Alves disse...

Porra, magistral!

Ígor Andrade disse...

Uma quadra de poesia, irmão!

Marcelino disse...

Às vezes nossas vidas ficam pelas esquinas, ainda bem que a poesia nos resgata, nos devolve esses trechos vividos, poesias como essa tua, parabéns!