domingo, 18 de dezembro de 2011

Não quero sentido



Não sei onde começa minha poesia e termina o domingo. Também pouca importa. Preciso caminhar na rua e tentar encontrar uma vida que não seja a minha. Porque eu sou um cão vadio. Urino em cada poste de cada esquina de cada rua de cada eu. Espio qualquer horizonte com atrevimento. Onde quer que esteja um verso perdido eu hei de encontrar. E hei também de esquecer os conflitos domésticos dos meus vizinhos. Pai que bate na filha, marido que bate na mulher. A ignorância humana se resume a um cargo de juiz. Mais lamentável ainda é um poeta o julgar. E por falar em homens, por que não falar em pássaros? Um pombo aprendeu a atravessar a rua porque o céu estava meio atravessado. Ponto. Monto um quebra-cabeça por hora. O que tenho agora é a rua do domingo e eu. E a senhora com bobes na cabeça, passeando com seu yorshire, que parece ter mais coragem de morder do que qualquer valentão que conheço. Passo em frente a um edifício chamado de "amor perfeito". Talvez o idealizador do projeto, engenheiro e arquiteto tenha sido Khalil Gibran. É, talvez eu não fizesse melhor. Mas pelo menos carrego comigo um pacote de bolachas e uma garrafa d'água. Preservo minha amizade com mendigos do meu bairro. Hoje conversei com João que era professor de português, e perdeu tudo pro alcoolismo. E assim caminha a humanidade, enquanto eu e João conversamos sentados na calçada quente. Mente quem diz que inventou alguma coisa. Quem inventou a psicologia foi João. Sem mais. Mas será que todo mundo já não era psicanalista antes de Freud, ou marxista antes de Marx, ou evolucionista antes de Darwin? Será? Serei lembrança de qualquer forma. E do outro lado do mundo um labrador chamado Thor uiva uma tempestade. E entre os ventos eu não sei ainda onde começa meu domingo e termina minha poesia.




Ígor Andrade

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3 comentários:

Luiz Libório Alves disse...

Quando você parecia se afastar da humanidade eu, sentindo uma mágoa em parecer tão marxista, pensei "mas pô, ele vai se afastar?". Mas daí você voltou pra ela, ou antes, pra João, e me senti bem melhor. Porque o que mais há é criaturas que amam a humanidade mas não amam os humanos individualmente. Você é o contrário, irmão. Odeia a humanidade e sabe que o mendigo chamado joão fundo a psicologia.

E no fim descubro que não sou o tal marxista. E descubro que, se há Thor, deve haver alguma tartaruga sem nome que é alimentada por japoneses. Amém.

Marcelino disse...

Nem a poesia termina nem o domingo começa: tua lira é um círculo em que o tempo e o homem se amalgamam firmemente. Com raríssimas exceções lidas nesta página, textos que escapolem desse círculo, 90% de teus versos (e de algumas prosas que por aqui aparecem) estás pleno com teus sentimentos e visão do mundo expressos em sábados, cinzas, remédios, homens e bichos.
Parabéns e um Feliz Natal.

Webert Gomes disse...

Ah! No domingo respira-se com o olhar.

Até que então se o feche e se dorme. Aparece segunda.

Não é rápido. Mas reside em piscar olhos.