sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A minha calçada

(03/01/2011)

Olho para as pessoas
daqui da minha calçada.

E daqui da minha calçada
já olhei tanta gente...

As pessoas desta praia
incontáveis identidades livres
vivem adormecidas.

(E quem não vive?
O sonambulismo é um estado
geral e comum
do mundo.
Vivemos num transe;
seguimos o caminho
que somos empurrados.)

Não me parece
que essas pessoas
tenham alguma preocupação.
Mas devem ter.

Olhar o mar.
Conversar com o vizinho.
Plantar frutas para depois comer.
Cuidar de cachorros vira-latas.
(Os vira-latas mais despreocupados
que eu já vi.)
Enfim...
Se preocupar com isso
é de perder o juízo, não é?

Olho para as faces bronzeadas
dessas pessoas
e me vejo tão inútil.

(O sol da capital
já não me queima mais.)

(Sinto tanta coisa neste momento
que mal sei explicar.)

Olho para o rosto
de cada um que passa
me desejando boa tarde
e me vejo neles.

Pessoas sem sonhos absurdos...

Sinto uma impressão forte
que o povo daqui
só vive porque nasceu.

(No fim das contas
viver é esperar a morte
mesmo.)

Olho o povo passando
nesta tarde
que é mais bonita
do que a tarde da cidade.
Dou boa tarde
e entro pra escrever.



Ígor Andrade

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5 comentários:

Nadine Granad disse...

Gosto dos seus breves, expressivos e impactantes...

Este ficou assim ;)

Beijos =)

Mr.Orange disse...

Meu caro Ígor, tenho a mesma sensação de que milhares de pessoas vivem em estado de sonambulismo , esperando apenas a morte chegar. Tal inércia faz com que os privilegiados que escrevem poesias (ou se expressam de alguma forma) façam a diferença no meio de tantos mortos que andam.
Ótimo texto e ótimo trabalho! Quando tiver um tempo, dê uma passadinha no “Que letra é”.
Atenciosamente. Adriano MB.

Luiz Guilherme Libório Alves disse...

Gostei e não foi pouco.
Acho que eu gostaria de estar mais por dentro da massa pra sentir alguma utilidade pra mim.

Abraço, irmão.

Marcelino disse...

Igor, se colocares este texto na forma de prosa dá uma crônica e tanto, cara. Muito legal, mesmo, principalmente o desfecho em q o autor declara ser a tarde dele, a q lhe é interna, é mais bela q a externa, a da cidade.

Keylla Bins disse...

Texto lindo. AdOrEi!!!