sexta-feira, 4 de maio de 2012

Zeitgeist naufragado



Perto de mim nasceu a urgência. Uma necessidade de não sei o quê e não sei quando. Uma conjugação de noites em que paro para pensar no que não tenho, no que não construí. Porque no fundo ninguém constrói. O concreto mente nas linhas. Entrelinhas acimentadas na imaginação. Mente que parece um verso. Um viver retilíneo que adora as curvas. A sombra na estrada enquanto o inverso de mim sou eu mesmo. Mesmo. Sem modo parece o outro. (Um minuto pro gole de café e a promessa que nunca farei.) Vida essa que parece a seguinte... Gente viva que parece morta. Aorta manhosa que parece solidão. Visão de um que entorta... a voz do outro. Tanta porta que não vai se abrir. Separação. Separo a reticência do vazio numa prateleira bem alta. Nunca alcançarei meu interior. Punho fechado que não quer mais escrever. Um desvio na noite e uma ilusão no retrovisor. Eu sou um reflexo no escuro. Ser humano impuro desde quando largou o ventre. Uma pressa uterina de paz. Longe daqui tudo é surdez. A rigidez dos dias que se esvaem, sem chuva, e a timidez das noites que nunca passam, sem lua. Minha janela é uma mulher nua, que não me quer. Tenho uma ligeira impressão que o silêncio joga xadrez com a cegueira, e não existe vitória neste mundo. Sou humano demais para entender qualquer coisa. O abstrato é uma ilusão acalorada no frio do deserto.




Ígor Andrade

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Um comentário:

Natália Campos disse...

"Gente viva que parece morta".

Parece?