quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Um poema de ontem cedo ou o cedo ontem de um poema


Dormi mal.
Acordei incompetente.
Minha vida é um solvente
e o dia não tem sol.

Me sinto só
como sempre
e como sempre
não estou só.

Só isso já seria meu melhor escrito!

Tenho dito.
Tenho feito?

A vida não tem direito
de escrever por mim.
Preciso dormir
mais e melhor.

Ou quem sabe tomar algum remédio pra memória...

Tento lembrar dos pesadelos que tive.

Em vão.
Eles vão
acabar me matando.

E por falar nisso...
estou morrendo
desde que nasci;
desde que escrevi
meu primeiro poema
(de amor).

Não uso terno
e cada tema
de cada dia
tem seu louvor.

Pronto, assumi!
Mas não vou assumir
nenhuma religiosidade.
Não acredito em nada
que não possa me tocar.

Não vou sumir
enquanto não somar.
Não vou dormir
enquanto não sonhar.

Não sei levar desaforo pra casa.
E tudo que tem asa não é obrigado a voar.

Sou humano
demasiadamente humano
e vôo.
Porque aprendi a viver no céu.

Talvez meu papel
neste mundo
seja apenas duvidar
de quem duvida de mim.


Ígor Andrade

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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Por isso escrevo


O tempo se arrasta.
O tempo me afasta
dos poucos que amo.

Por isso escrevo.

Por isso eu nego
e não devo
nada pro dia de amanhã.

Antes da manhã
a noite nunca é a mesma.
A lesma
sou eu
quando sei o que quero.
Não espero.
O que sinto não pára.

E sempre pareço outro cara
que não tem cara
para mentir sobre o que sente.

Estou cansado.
Estou ficando doente.
E não consigo dormir.
Acima de tudo
logo abaixo de todos
não sei fingir
fingimento.

Lamento
o que não lamento.

Um tormento lento

na minha cabeça
incomoda os fantasmas
de quem não conheço.

É preciso lembrar
que sempre esqueço
onde moro.
Quando não peço paz,
imploro
por uma madrugada justa.

Essa morte diária de toda noite me custa
muitas vidas...

E amanhã nasço de novo.
A galinha antes do ovo.
E tudo que é confusão.

Já não se fazem dores como antigamente!
Eu nunca morro em vão.

Antiga mente a minha
que sabia o que era vida.

Hoje a vida não tem vida
no orgulho dos cães cansados.


Ígor Andrade

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Tudo cinza e muito claro


A tarde passa
por mim.

Tudo cinza
e muito claro
ao mesmo tempo.

Não tenho tempo
a perder.
Deixo o que me deixa
e procuro esquecer
o pouco que tenho.

Tenho pouco
e muito amor.
Muita coisa a dizer
sobre o infinito que sinto.

Não minto.
Aperto o cinto
porque emagreci.
Mas assumo que longe dela eu engordo.

Só sei ser assim:
intenso, amante, perturbado e apaixonado.
A vida tem me mostrado
por quem vale a pena viver.

E vou viver
com ou sem minhas fraquezas...

Ponto.
Estou pronto.

Todo homem forte
descarta a sorte
e encontra um norte
quando ama.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Tratado sem tratamento


Primeiro você tenta entender o dia.
Depois tenta entender a saudade.
Aí descobre a dona da saudade.
(Porque toda saudade tem dona.)
E você se perde.

Eis o sentido da vida:
Sentir falta.
Encontrar-se em cada desejo.
Lembrar de abraçar o beijo
imaginário.
Morar no outro
sem sombra
e com sobra.

A beleza pára
quando você tenta entender o dia
sem o seu amor.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

E o mundo ficou quieto


E o mundo ficou quieto.
Ou nem tanto.
Esqueci de lavar o prato
e engoli o pranto
que já não existe mais.

O que foi ruim
deixo para trás.
Pra mim tanto faz
quem não fez
o que quis de mim.

Ando meio assim:
sem andar muito.
Amo muito
ou esqueço o que vou fazer.

Quero crescer, morrer, nascer...
Não sei ser
de outro jeito.
Eu fecho a cara para explodir o peito
de desejo.

Quero a boca
o colo
e o beijo
da mulher de minha vida.

Minha ida
para a sociedade dos poetas amantes!

A vida sem os seus conservantes
perde a cara e a hora.

Eu não posso esquecer do que sinto agora.

O mundo lá fora
é podre demais.
Encontrei a paz
sem querer.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Uma ciranda qualquer


Merecer o que
ninguém perece.
Perecer o que
ninguém esquece.
Esquecer o que
ninguém merece.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O panteão da minha mente


O oceano da noite
é uma ponte
silenciosa e estranha.

Já não estou mais aqui.

Meus fantasmas caminham
no Jardim de Luxemburgo...
A morte encontra uma rosa
e pensa na vida
que não teve.

Ninguém sabe.
Eu já tive uma vida.
Já fui assassino e suicida.
Moro na rua dos esquecidos.

Nunca serei lembrado!

Não quero mais a guerra dos humanos.
Mas preciso da batalha dos escritores.

Muitos amores.
Muitas mentiras.
E ninguém me tira
da minha caverna.
Vivo num inverno que eu inventei.

Abençoada seja toda escuridão.

As sombras sobram
num sobrado de felinos moribundos.

O vazio e todo ódio
existe na pureza
do sorriso escasso.

Eu não posso.
Eu não passo.

A lágrima é uma meretriz.
Me leram em Paris
hoje.
E eu nem fiz
a barba.

Eu nunca quis
ir tão longe.


Ígor Andrade

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