quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O desprezo é uma reza muda


Cada vez mais difícil escrever.
Cada vez mais difícil esquecer.
Quem sou.

Atordoado, largado e besta.
Espírito de leão aleijado.
Um pensamento dormindo numa cesta
de pão
velho.

E como sempre
os outros vão.
E eu fico
velho.

Quem eu quero perto
me quer longe.
Quem eu trato bem
me agrada por obrigação.
É isso ou fiquei retardado.

Não deveria, mas devo...
escrever no caderno que escrevo
todos os dias.
E todo dia é uma vida longa demais.
O que eu não faço é o que ela faz.
Não quero dizer mais nada.

Passo o dia pensando em como não pensar no dia que passa.

Sou facilmente esquecido
e esqueço como quem tem Alzheimer.

Mais um ano vai acabar
e eu sozinho como sempre
com uma cerveja na mesa
e umas folhas em branco na cama.

Minha cachorra sabe o que ama
e é uma boa companhia.


Ígor Andrade

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domingo, 14 de dezembro de 2014

Awake


Tem gente que morre no domingo.
Seres humanos que não dormem e também não vivem.
Tem gente que nasce no domingo
ou perde a virgindade enquanto os pais estão na praia.
Tem gente que passa o domingo dormindo
enquanto não sonha.
Tem domingo que tem gente.
Poesia dormente na calçada misteriosa
de uma vida sem graça
que não passa.
Tem o que existe.
Tem o dia.
E tem quem não escreve o que sente.
O verbo dos amantes
tem sol demais
e o silêncio do domingo
não está à venda.


Ígor Andrade

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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Aponeurose epicraniana


O tempo é suicídio.
E o seio do dia não tem forma.

É o corpo dessa rotina que me faz crescer.

Tenho tempo.
Perco tempo.

Todo calor de hoje será recompensado.

A esperança é o berço da desgraça
e o amor não importa mais.

Papai Noel morreu em Alcatraz
e as músicas natalinas me causam depressão.

Aquela sensação estranha de mar em fúria...

Cadê a motivação que estava aqui?


Ígor Andrade

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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Para o Mestre Fabio Rocha


(Leiam A Magia da Poesia.)


Poesia
não vende
porque não tem silicone.


Ígor Andrade

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Espacial não especial


O futuro me enche o saco
sempre antes de dormir.
Não posso fingir que sou
o que o outro pensa que quer.
Não quero essa vidinha
de planejar planos desse planeta.
Eu posso esquecer de tudo
ou tudo pode não me esquecer.
Não sei quem fui
e se fui já não sou mais.
O cão que corre atrás do próprio rabo.
O passarinho na gaiola do vizinho.
O rato morto na esquina da Costa Barros.
Não me interessa o deus da minha mãe.
Muito menos a doutrina militar do meu pai.
Eu apenas escrevo e não devo condomínio.
À noite eu morro e nem sei se quero acordar.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Não vi o degrau


O homem
sobe
quando sabe.


Ígor Andrade

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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Poema de segunda


O dia não é diferente.
Mas os olhos de criança se renovam.
A vida é invenção incansável.
Sempre.

Procurar um sorriso num desconhecido
não deveria ser obrigação de ninguém.
Ódio não faz bem pra pele.

Uma calçada sim outra não.
O mundo está cada vez mais sujo.
Muita gente pedindo perdão.

Deus é um carro do ano que buzina como se não houvesse amanhã.
A contramão da rua enfrenta a cegueira dos homens.
A miopia beira a faixa de pedestres.

Todo nascimento oculta poesia na maternidade dos silêncios.
Tudo que não cala não pode colar o vazio.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Simple man


Para Thiago Andrade, Magela Osterno e Igor Macedo.
(Antes ou depois do poema escutem Simple Man de Lynyrd Skynyrd.)


Qual o sentido da vida?

Sentir
sem fazer sentido.
E seguir.

Porque homem que é homem caminha pra frente.

E lá na frente
a gente compreende
que só sabe para onde vai
e só sabe o que a gente quer
quando descobre de onde vem.

Não queremos.
Nascemos
sem querer.
E morreremos sem entender
todo sentido de destruição humana.

O homem é um bicho que implica com a guerra.
O homem enterra
tudo que ama.

A mesma religião que salva
também engana
e mata.
A mesma ciência que não explica
também complica
e falha.

Quem aprende a lutar vive em harmonia? Com o quê?
É preciso precisar para perceber?

Ah... Eu acho que tanto faz.

O homem que criou o prêmio Nobel da Paz
foi o mesmo infeliz que inventou a dinamite.

Explodir é a evolução?
Ter ou não a noção
de mandar tudo pelos ares.

Amores, favores, amares...
Há males
que vêm para o bem.
O dia vem
a gente querendo ou não.
Ponto.

Viver é consciência.
Viver é estar pronto.
Estar vivo é peso.
...
Seguir com leveza
talvez seja
o sentido
sem fazer sentido.

A vida é assim:
A gente pega o que sabe e tenta reaprender.
Pega tudo que fizeram com a gente e tenta não fazer
com o outro.

Somos os outros
e os mesmos.
Um tal de nós mudos
num presente sem futuro
mas com um passado chato.

Somos sonhos que não vamos realizar.
(A gente sonha pra dormir ou dorme pra sonhar?)
Ou vamos realizar o que nunca sonhamos.

Somos o que não dizemos,
somos o que não somos
e isso não faz muita diferença no fim da estrada.

A estrada é longa e passa rápido.
E parece que depois dos trinta
gastamos quase tudo que ganhamos
com farmácias, multas e prestações de qualquer coisa.

Até lá eu só sei
que os dias bons
(que são poucos)
podem superar os dias ruins
(que são muitos).

Os melhores humanos não morrem nunca.


Ígor Andrade

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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Thyréos


A parede branca
do quarto branco
na folha em branco
de uma lembrança pálida.

A solidão é válida
mas também é negra.


Ígor Andrade

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