sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Qualquer sorriso


A sensibilidade
torna tudo
possível.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Amanda


Para minha querida amiga Amanda.


Amanda
não manda
em mim.

Mas poderia...

Amanda tem sido a alegria
dos meus dias.

Meus dias
que pareciam os mesmos
não são mais os mesmos
com a ajuda de Amanda.

Amanda anda
como quem não quer nada.
Uma companheira. Uma parceira.
Uma grande sombra nesta caminhada.

Amanda é
eterna em seus silêncios.

E eu preciso desses silêncios
como a voz precisa do ouvido.
E tenho ouvido
de tudo neste mundo.

Às vezes ou quase sempre
este mundo só quer nos atrasar,
nos apavorar e nos lembrar
que somos humanos.
Apenas humanos.

Mas Amanda não pertence ao tempo dos derrotados.
E os derrotados não sabem que toda vitória demora uma vida.

Amanda é ida
sem volta
no meu deserto.
Amanda longe.
Amanda perto.

Amanda é água fresca
na sede de quem sabe crescer.

Amanda é ser.
"Nunca estar."


Ígor Andrade

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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Por que converso com minha cachorra?


O que querem de mim as pessoas que não conheço?
O que esperam os outros do meu silêncio?
O que significa de fato a saudade?
Quem eu conheço de verdade?
Quanto vale trinta e três anos de idade?
Quem sabe mais da vida que as esquinas?
O que é caminhar sem rumo?
Por que dormir é bom se existe pesadelo?


Ígor Andrade

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sábado, 22 de novembro de 2014

Poema de todo mundo


Onde estão os meus amigos?

Amigos?
Meus?
Onde?

Tudo que tenho
não tenho:
palavras
(que ninguém lê).


Ígor Andrade

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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Moluscos


Morre a tarde.
Chuva fina.

Faço vista grossa para a preguiça.

A casa observa os passos
que não dou.

Não posso
(e nem consigo)
descansar.

Sistema nervoso central
na periferia.

Uma paz estranha e manhosa...

Seja o que qualquer deus quiser!


Ígor Andrade

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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Sala de (não-) estar


O retrato da sala me cala.

Tanta coisa que deveria ser.
Tantos quantos em mundos poucos.

O indiscutível "não somos"!

O que nunca teremos...

Mundo nenhum deveria fotografar momentos inesquecíveis.

Fica proibido desde já
o sofá nesta posição.


Ígor Andrade

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Dubitare


Não posso mais.
Não passo mais.
"Pra mim tanto faz"
se não quero fazer.

Eu quero esquecer
o que não posso mais.
Porque não passo mais
e tudo isso não faz
o menor sentido.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

"Apertamento"


O apartamento aperta o peito.
A vida precisa de espaço.

A tarde liberta a alma.
Caminhar é preciso.

A mente controla o corpo.
Toda força depende do foco.

Para cada homem perdido
existe uma raça de cão correspondente.


Ígor Andrade

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Não manda


Na frieza da ausência.
O calor da lembrança.
O cheiro que me resta.
Beijo a testa
do que é solidão.

Não existe prisão
que canse o poeta.
A mulher linda é uma linha reta
que amansa deuses de outro mundo.

E lá no fundo
este mundo não pára.
E não existe cara
nem hora certa para o sofrimento.

Não preciso da pressa
nem do lamento
das tardes presas na garganta.
Não sou um homem.
Sou uma anta
que aprendeu a escrever.

A saudade é uma conversa boa
que não quer perecer
no suor e na dor da lucidez.

Dessa vez
cada sorriso pacifica o perigo
e todo cansaço é o abrigo
de quem sabe amar o que quer.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Toda "sexidez"


Um dia te perdi.
Um dia te encontrei.
Um dia te toquei.
Um dia te mordi.

Um dia
é o pedaço do nosso ser
que mastigo saborosamente
até hoje.


Ígor Andrade

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Neurastenia sorridente


Eu sei quem sou
na madrugada.
Hoje e sempre talvez.
E isso parece muito.

Janela silenciosa
e rua vazia.
Perna quebrada
e braço forte.

O mundo mente.
Sou só.
Sobrevivente
e egoísta.
Faço vista grossa
para qualquer coisa
que não me faça verso.

Eu peço pouco
e por isso desconheço
o sofrimento do amanhecer.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Autorresponsabilidade sem autocontrole


Queria me lembrar de como eu era.
Queria esquecer de como eu sou.
Queria escrever um poema sobre raiva.
Mas não queria sentir raiva do poema.
Acho que hoje não vou escrever.
Sinto pena do que posso me tornar.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Calminex e diclofenaco


Segunda-feira.
Meu corpo dói
e eu procuro um herói
que perdi na infância.

Preciso vomitar a ânsia
de toda dor
que minha cabeça constrói.

O rato rói
a roupa das escolhas
que não faço.

No infinito vazio de qualquer laço
aquele pequeno espaço
entre acordar e não dormir.

Inacabável existir
neste cansaço absurdo,
absorto, quase morto,
quase surdo...
sem insistir no que pede insistência.

A vida vai consumir
cada sonho que não é meu
sem pena e paciência.

Cada sonho que não é meu.

Minha poesia me fodeu.
E não estou pronto.
Nem Galileia
nem Galileu.
Deserto
de certo.
Ponto.

Um acerto no aperto
de cálculos errados.

Algo se perdeu.
Algo me perdeu.
Tudo ferrado.

E o que foi feito?

Faz calor no rosto.
Faz frio no peito.
Faz tempo que não sei o que é coração.

A vida vai.
Este poema, não.

Nascer é um labirinto verde
que acaba com qualquer sorriso amarelo.

Crescer é morrer num castelo
de areia.
Coisa feia!
Caminhar sempre pro mesmo lugar.

Ansiedade causa úlcera
e faz chorar.
Mas eu não choro.
Burrice causa arrogância
e eu imploro
por paz.

Faz pouco tempo
que o muito tempo me faz
de pouco.

O método de exaustão de Arquimedes
num aborto literário de um louco.

Fim.


Ígor Andrade

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domingo, 9 de novembro de 2014

Psiquismos de gaveta


Procuro alguém
neste domingo
que não me entenda
que não me venda
a longo prazo.

Dia lindo.
Sujeito raso.

O mundo é feito de solidão.

("Sol i dão")


Favor nunca esquecer dos dias quentes.
E não deixe de lembrar do frio da alma.

Sou só.
E tenho calma
na minha cama.
Sou o pó
da poesia.
E cada verso me ama
como antigamente.

E de repente
o pouco que eu sabia
faço questão de desaprender.

Toda vida vai crescer
longe de mim.

Procuro alguém neste domingo.
Procuro alguém?
Encontro eu?


Ígor Andrade

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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A luminária cega


Tropeço
na pressa
desta noite.

Não peço
nada
a ninguém.

Eu passo
e sei
o que não passa.

O preço
da vida
é a espera.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

E isso é tudo


O dia sorri lentamente
em uma calçada
de silêncios
meus.

Tudo que enxergo.

O domingo perfeito
não tem ego.
Mas tem vento e calor.
E eu gosto mais do fim de tarde...

Toda arte que tenho
e algumas dúvidas para amanhã.

Sair da caverna ou entender minha escuridão?

Minha barba é minha revolução.
E quem sou eu?

Trinta e três anos de estranhezas e perturbações!

Minha esperança monetária se foi.
Ansiolítico no nervo óptico
sem otimismo ou orientação.

Eu sou?
Os outros, não.

O domingo é minha salvação
e eu nem aceitei Jesus.
A luz
no fim do túnel
quem criou foi Thomas Edison
e Edison sonhava.

Alguns sonham demais.
Outros, são.
Quem sou
eu?

Confusão é nascer.

E para cada sujeito doente
existe uma pessoa demente
que faz psicologia.

Eu queria mais.
Eu poderia mais.
Eu faço de menos.

Nem céu nem inferno
hoje
apenas inverno
que vem
quando toco o chão.

Cheguei a triste conclusão
de que estou onde deveria estar:
vivo.

E isso é tudo.


Ígor Andrade

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