sábado, 27 de setembro de 2014

Saturdei


O sábado tem um sossego esquisito.
Cheiro de nada e tudo escrito.
Algo que não passa e nem morre.
Um velho acabado que não corre.

Sou sábado.
Mas quero ser domingo.

Dormindo
até meio dia.
Melodia
dos mais silenciosos poetas.

Eu prefiro as curvas.
Não gosto das linhas retas.

Metas:
não tenho.
Não fui e nem venho.
Mantenho
a ida.

Talvez o mais valioso da vida
seja o rascunho que ninguém consegue ler.
Sobreviver
ao paraíso inventado.
Morrer no inferno ou no inverno
deitado.

O sábado sabe
que não cabe
neste poema.


Ígor Andrade

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Atualizar é um bonito verbo


O tempo parou.
Ela voltou.

Ela voltou.
O tempo parou.

Fazia tempo.
E o tempo fazia.
Todo tempo fazia.

Não tenho mais idade!

Tudo parece saudade.
Toda saudade parece tudo.

O mundo pode ser o mesmo
mas eu mesmo não posso nesse mundo.


Ígor Andrade

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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

monstrum in fronte, monstrum in animo


Agonizo com saúde.
Isso é poesia.
Prazer!
Sem prazer.

Escrever é um ato sombrio
de liberdade.

Mas por que escrevo mesmo?

(Agonia é comum
e talvez eu seja
viciado nisso.)

Escrevo porque sou teimoso.
Insisto em viver uma vida que me mata.
Meu instinto quer tocar o sorriso de alguém.

Digo o que quero dizer
pra gente que não quer saber de mim.
Minha mulher nunca me leu
de fato.
Sobrou um retrato dela na sala.
Meu pai me acha um fracassado.
E não me restou um amigo
desde que fiquei pobre.
O povo não entende do que se trata a poesia.

Sou diferente,
estranho
ou comum demais.

Sinto paz quando assisto "Scarface" ou "O Poderoso Chefão".
O eterno diapasão entre sonho e realidade.

A vida fode a gente.
O poeta fode tudo.
Toda cabeça é vulnerável.
Conquistar é o lema da bandeira
dos conquistados.

Descobri que faço poemas
para espantar o calor de Fortaleza.
Não esqueça:
É do vazio que nasce a porra toda.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Reforma interior


O que eu quero da vida?
É não querer.
A vontade enlouquece o homem.
E o homem quer ser deus.
Mas deus não existe
em homem algum.
Viver é um senso comum
de comodidades. 
E vivo como?
Quando quero demais
me perco.
Quando quero de menos
emburreço.
Se o dia é ruim
eu esqueço.
Mas se a noite foi boa
fico me perguntando o que quero
da vida...
O que a vida quer de mim?
Não posso ser como os outros.
Não quero como eu quero.
Tudo tem de ser sem querer
talvez.
Outra vez
penso ter outra vida
que não me quer direito.


Ígor Andrade

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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Um belo poema sobre a vida


Ainda
não
morri.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

(Sub)consciente


"As minhas capacidades ou os meus talentos são muito limitados. Zero em ciências naturais; zero em matemática; zero em tudo quanto seja quantitativo. No entanto, o pouco que possuo e que se reduz a pouca coisa foi provavelmente muito intenso."   (Freud)


Hoje madrugo simples.

Sujeito homem
de peito aberto
e punho fechado.
Um pequeno alívio sentado
num banquinho quebrado de madeira.

O abismo. O escapismo. A beira
da saia de uma deusa que nunca toquei.
Acho que eu me lasquei 
de desejar o que não se deseja.

A noite beija
a foice da morte.

Não pensei muito.
E não falei pouco.
Talvez seja sorte.

Norte de barbudo
é uma madrugada ventilada.

Não sei de nada.
Mas sei de tudo.
Levei meu demônio para passear
e esqueci o bichinho no meio da rua:
mudo,
no meio da rua.

Tudo que o homem leva
dessa vidinha de merda
é a memória nua
e sem frescura
de uma boa companhia.

Quem diria...
Hoje conversei com Freud.
Hoje eu me fodi.


Ígor Andrade

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domingo, 21 de setembro de 2014

Rua José Vilar


Uma e meia da manhã...

Um bêbado desce a rua
puxando o filho pelo braço,
falando besteira
e se batendo nas paredes.

A rua era calma.
E a vida ficou ridícula.
Calçada sem graça.
Esquina sem dono.

O tempo esqueceu de mim.
Ninguém me avisou que pode amanhecer.

O que é isso tudo?

Perdi a fome.
Mas sinto sede.
E sinto medo
de dormir.

Viver é isso aqui (?).

O bêbado volta.
A criança chorando,
toda suja...
O bêbado mais bêbado.
Caindo aos pedaços.
Não faço nada.
Não quero fazer nada.
Vejo a desgraça passar.

Não sei
e nunca vi
este sujeito.
Mas acho
que esta criança
sou eu.


Ígor Andrade

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Olympia


Os monstros não dormem.
Os olhos não se fecham.
O mundo pouco sabe.
A noite não dorme.

Os cegos nunca acordam.
A rua não se limpa.
A janela não se quebra.
A vida não passa.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Café gelado e frio na mão


Passei algumas horas
pensando no que os outros fazem
para viver.
Para eu não morrer talvez
de tédio.
Pensar e observar as pessoas
é mais veneno que remédio.
E eu nem sei direito porque estou escrevendo isto.

Dormir cedo para acordar cedo
e passar o dia reclamando da vida.
Dormir pouco e ganhar muito
para morrer infeliz.
Acordar todo dia
sem tocar na cicatriz
do passado.

(Tenho passado mal.
Obrigado!)

Ando escrevendo pouco sobre o futuro...

A vida de repente nos meus olhos
me cega e não diz por quê.
Absorver
cada pequeno desejo
de apenas parar com tudo
e tentar sorrir.

Não quero dormir
hoje.

Eu acordo todo dia
com aquele peso medonho na cabeça.
E faz tempo que não ganho um abraço.
Seja lá de quem for.

O meu bolso furado desata o laço
de qualquer amizade.
Se não vai cedo
já foi tarde.
E é duro assumir isso.

Toda dor que sinto é um compromisso
e é diário
e dói.
Um abismo mental
que não tem fim.
Me tornei uma máquina de guerra
que não consegue chorar.
E é ruim
ser eu.

A vida me deu
pouca paciência...

Não entendo os outros.
Não me entendo nos outros.
Os outros me olham diferente.

Não quero sentir pânico de novo
mas também não quero o presente.
E agora?


Ígor Andrade

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domingo, 14 de setembro de 2014

Sem carona


O dia de hoje não teve graça
nem glória.
Não vi sorriso de ninguém.
Fico na janela do quarto
vendo o domingo passar.
Eu não passo bem.
Faço muito mal para minha pessoa.
Meu tempo não anda, nem voa.
Estou estacionado nos meus trinta e três anos.
Sou outro. Sem outra.
Cheguei num ponto que já não me importo mais...
Não consigo ver meu futuro.
Não quero olhar para trás.
Estou num presente
ausente.
Bolso vazio e cabeça doente.
Tudo é partida.
Não posso tocar minha vida
do jeito que eu quero.
Não posso tocar em qualquer vida
do jeito que deve ser.
Sou um fantasma moderno
que vive com medo de morrer
de novo
aos pouquinhos...
Sou um poeta covarde demais
para não escrever sobre si mesmo.


Ígor Andrade

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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Quase quarta


É quase quarta
no meu quarto.
Tudo sou eu.
Ego sem eco
no inferno da solidão.
Hoje sim
mas ontem não
vi o tempo passar.
Como posso viver desse jeito?
Calor maldito na cara.
Dor no peito.
Tudo (não) passa
no que já é passado.
Tenho caminhado
com um peso medonho nos ombros.
Sinto a presença de alguém.
Nada e ninguém
é o que tenho.
Eu nunca fui
e nunca venho
sem poesia.
Passa a noite.
Passa o dia.
E eu só quero voltar pra casa.
Um pássaro sem asa
nunca sai do ninho.
É quase quarta
no meu quarto.


Ígor Andrade

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