terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Cavalo dócil ao freio


O tempo distorce
os fatos.
Os atos
distorcem o tempo.

Todo lamento
nasce de um relógio quebrado.
E todo relógio quebrado
é um relacionamento
que esqueceu de funcionar.


Ígor Andrade

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Um poema de hoje cedo


Amanhece.
Anoiteço.
Ela esquece.
Eu esqueço.
A cor aquece
a dor do berço.
Amadurece
o que adormeço.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Reumatismo poético


E se a vida
não for simplesmente
uma sequência aleatória
de acidentes diários?

E se eu
com esta vida que tenho
não saiba significar
qualquer determinismo?


Ígor Andrade

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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Desaprendo os fins ensinando inícios


Navego
no meu abismo.
Não nego
meu egoísmo é um prego
torto.
Nunca me vi
tão humano
e morto.
Também não encontro
meu ego.

Fim.


Ígor Andrade

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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Sempre ou quase de vez em quando


O poema certo
toca
a mulher errada.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Um e oitenta e um


Sono sobrando.
Sonho sobrando.
Eu me falto.


Ígor Andrade

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Porque a segunda é bem chata sem ela


Nem tudo que vejo é verdade.
Nem o pouco que sei é mentira.
O ouvido sabe quando o olho vira
e todo sentido versa o inverso da gente.

O mundo é o que o homem sente.
Mas, amando, é a mulher que constrói.
Tudo que é poesia nasce do útero e dói.
A alma rói
o que o rato não quer.

O prato vazio esquece a colher.
E o último a fechar a janela
que se lembre da luz.

O que me reduz
me enobrece.

E se eu soubesse
descrever minha saudade
certamente seria um sujeito pior.

Saudade é o melhor
que temos.

O que não vemos
é o silêncio do outro.


Ígor Andrade

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sábado, 18 de janeiro de 2014

Devoto do falcão peregrino


Para cada pássaro.
Para cada asa.
Para cada vôo.
Um pouco de mim
aqui
sem ar.


Ígor Andrade

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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Quarto andar


Sirvo-me daquilo
que não me pertence:
a noite.
Açoite
que não me vence
a preguiça.

Todo escritor tem um motor que enguiça
mas depois se ajeita.

Ninguém se sujeita
a escurecer sozinho.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A ida


Todo desafio
deforma
a vida.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Ou do futuro


Hoje
eu não quis
escrever.

Escrever
é um querer
do passado.


Ígor Andrade

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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O colecionador de facas


Meu bolso vazio
é uma oficina
que perdeu o martelo
pro fantasma de um desocupado.

Tudo que penso parece confuso
e eu não ligo pro que é pecado.

Todo poema passado
é uma roupa velha
que não consigo jogar fora.

Não consigo jogar bola
porque minhas calças afrouxaram.
Mas eu não emagreci.

Hoje mesmo eu nasci
sob a égide da comilança.

Encher a barriga cansa
a cabeça.

E pra que eu nunca esqueça
que quero o que não posso pagar...
planejo, desenho e construo
coisas que não consigo usar.

Há sempre um tipo de pobreza
que me torna um homem melhor.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Any salvation (only one attempt)


Life moves slowly.
The time does not know who runs.
The goodness rescues the poets of Stone Forest.
And all pain has one or two silent steps.


Ígor Andrade

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Nuvem. Não vem.


O céu de hoje
não tem estrelas.
Eu não abri meus olhos.


Ígor Andrade

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Eu vi


O homem moderno
anda anestesiado.
O tempo é o aleijado
de sempre.
De sempre.

Hoje a rua perdeu a graça.
Um maldito chuta um vira-lata
mal disfarça
e sorri.

Sinestesia moribunda.
O pôr do sol afunda.
Tudo longe de mim.


Ígor Andrade


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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Para Dona Rejane e Dona Lucivanda


Ser mãe
é um sermão
perfeito.

É ouvir o silêncio
e ter jeito
de ainda assim calar.

É a arte de criar
um mundo
antes do filho.
É parir um andarilho
que não sabe caminhar.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Enquanto o cuscuz esfria


Cada parede branca
é uma companheira quieta
de minha ignorância.

Tudo aqui dentro grita
e o mundo lá fora é ânsia.

Quem sabe mais de construção
(do ser)?

Ninguém impede ninguém
de crescer.

Tudo que nos pára
tem um porquê
de quarto sujo.

O melhor amigo do homem
é um caramujo.
Que carrega uma concha
cheia de passado.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

As folhas


Lugar sagrado é a varanda.
Onde se vê a rua
e se esquece a casa.

Tudo é uma cadeira preguiçosa.
E a noite se encosta numa arrumação
de solidões.
Repouso de multidões
na gente.

No colo de Apolo
todo cão desenvolve teorias
sobre a criação do universo.

No fim
é a brisa que conta.


Ígor Andrade

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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Alca(teia)


Esta noite sonhei
que era um lobo
perdido na chuva.

Procurava comida
mas, claro, só encontrava água.

Desconhecia minha matilha
mas também não estava sozinho.

Esta noite sonhei
que era um lobo
que não sabia caçar
mas tinha aprendido a uivar muito cedo.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Lavanda


A rua calma
me acalma.
É como se não precisasse de gente.

Sem buzina ou fumaça
o tempo passa
cuidadosamente.

Eu sou um cão velho
que evita a esquina
enquanto procura uma varanda.


Ígor Andrade

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Porque leio Neruda


Dedico meu desinteresse a primeira segunda-feira do ano.
Onde acordei sem minha mulher
e decidi caçar meu apetite por aí.

Não quis sair de casa.
O pássaro sem asa
gosta do ninho que sua imaginação construiu.
O mundo se exauriu
da gente
mas aqui possuo o infinito no meu quarto.

Meu joelho dói
e minha preguiça corrói
gerações de desocupados.

O futuro é um passado
que nunca existiu.

Hoje
gostaria de adiantar as horas
e me exercitar um pouco.
Mas tenho medo da morte.
Hoje.


Ígor Andrade

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sábado, 4 de janeiro de 2014

Presta atenção


O sábado é um pintor estressado
que pinta o que não quer
pra gente que nunca viu.
Não decide que cor usar
porque não entende a tela branca.
Não sabe o que pensar
e nem o que é inspiração.
Confunde expressionismo abstrato com putaria de boteco.
O sábado é um cacareco
que desistiu da arte.


Ígor Andrade

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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Herói sem face


Eu moro no bocejo do meu quarto.
Onde enterro os sonhos mais impossíveis.

Amanheço a raiva da janela sem cortina.
Porque vivo a escuridão poética dos fracassados.

Aqui já fui até escritor.
Vendi livros e dei autógrafos.
Agora construo coisas
que provavelmente nunca usarei.
Acho que eu sempre quis ser mecânico.

Tenho quatro reais na carteira
e umas poucas moedas no bolso da mochila.
Não tenho amigos
nem inimigos
e só uso pijama escuro.

Meu quarto mora em mim
como um templo perdido da Índia
mora nos ratos.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Apoio de frente


Não que nos falte memória
porque falta inteligência.

Não que nos sobre idade
porque sobra vaidade.

Não que seja tudo fato
porque logo o feto some.

Não que se perca a verdade
por conta do sacrifício.

Sim... aprendi que todo ofício
é mentiroso
e o mundo só pode ser feito
de distrações.

Fim.


Ígor Andrade

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2014


Aquela arrumação de sempre.
Minha vontade de não fazer nada.

Enquanto o povo mal educado faz barulho,
o ano novo não liga pro meu silêncio.

Por que devo pensar diferente que este agora pode ser melhor?
O que eu quero da vida que não tenho?
Quem no mundo tem uma mulher como a minha?

Bebo minha cerveja com um sorriso amarelo.
Lamento as cifras gastas com fogos de artifício.
O povo é uma manada que não quer mudar.

Meu ano começou faz tempo.
Todo tempo é relativo mesmo.
Meu relógio é a poesia.
E a poesia não tem hora.

Preciso criar muito mais.
Sou o cara que nasceu no lugar errado.
O dia de amanhã salgado
antes da uva doce da meia-noite.


Ígor Andrade

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