segunda-feira, 22 de julho de 2013

O canto do dedão inflamado


Haja calçada
para tanto pé.

Só digo isso
hoje
porque não topei
nos meus pensamentos.


Ígor Andrade

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O de sempre, sempre


O Papa tem Deus no coração.
A política tem o povo na mão.
O circo, o palhaço e o pão.
O que falta?


Ígor Andrade

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quarta-feira, 3 de julho de 2013

É


Eu preciso reduzir
tudo o que penso
para entender
o que não sei.

O que não sei
simplesmente
se entende sem precisão
e não se reduz.


Ígor Andrade

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domingo, 2 de junho de 2013

De vagar


Minha vida é teórica demais.
O pior é que gosto disso.
Vivo de cara pro céu.
Esperando o próximo poema.
De repente chove.
Fico parcialmente feliz
quando vejo um cão atravessar a rua.
Nunca entendo onde começa o dia
nem onde termina a noite.
O tempo presente é complicado
e simples demais.
Não sinto que sou único.
Mas sei que sou único.
Minha barriga ronca acordada.
Dormi mal e sonhei pouco.
Hoje.
Domingo é o melhor dia da semana.
Talvez por isso termine tão rápido.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 30 de maio de 2013

Um texto oxigenado


Hoje acordei no fim do mês. Talvez, neste tal mundo. Imundo. Não mudo a cor da tarde e pouco lembro do que foi cedo. Sinto um medo de não sei o quê. Posso até me perder nesta fome toda de não saber pensar. Posso até pesar, antes de ter amado. Um poeta armado... de solidão. Então, hoje é feriado! Ninguém foi trabalhar, mas todo mundo tem preguiça. Todo mundo tem cobiça, e não quer trabalhar também amanhã. Santa missa que o padre fala com as paredes. Feriado ferido. Todo ser humano tem amigo. Eu não. Em vão. Se vão. O cifrão não fala a minha língua. Corpus Christi. O corpo insiste no balanço da rede. Todo nome e toda sede no altar sagrado do egoísmo. Povo besta! Povo sem lirismo. Muito ismo a esmo. Tudo no mesmo. Povo besta! Celebrar o corpo e o sangue de Cristo, pensando na farra da sexta. Este é o futuro cerebral. E eu acabei de acordar. Enquanto meu estômago cheio reclama de uma dor terrível no pé. Direito. Eu ainda acho que ando demais. Sem sair do lugar.


Ígor Andrade

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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Praticando a tarde


Tato denso.
Teto tenso.
Feto imenso.
Imerso e manso.
Fato tanso.
Canso.
Não danço.
Feito ganso.
Amanso o lago.
E descanso leigo.


Ígor Andrade

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terça-feira, 14 de maio de 2013

A flor do sinal


Para minha mãe Rejane Maria, minha tia Regina Pinho e minha sogra Dona Lucivanda.

O que é ser mãe?

É ser tudo.
Poesia de nascer
no presente do absurdo.
É o maior mundo
e todas as suas possibilidades
de fazer o melhor.

É sentir-se o pó
num dia cansativo de um filho febril.
É ser mil
mesmo que seja pouco.
Porque até para cada louco
existiu um útero puro.

Ser mãe
é colher maduro
antes da semente.
Divindade que não sente
dor
nem frio.

Eu me arrepio
quando penso na minha mãe.

Quer entender o que significa força?
Observe uma criança comer
enquanto a mãe sente fome.
Ter uma mãe é ter um nome
na eternidade de todo paraíso.

E para todo riso
existe uma mesa farta
num almoço de domingo.

E para cada barriga cheia
existe uma lágrima de alegria
num travesseiro tranquilo.

Ser isso e aquilo
e cuidar em ter cuidado.

Curar enquanto a vida durar.

Ser mãe é um viver laborioso
num laboratório desértico.
Antes do pai
a mãe é o lógico
além do ético.
E todo parir é uma oração.

Ser mãe
e sermão
verbo estar sem estação
de um estado longe.

Toda mãe é um monge
que não precisa meditar.
Hoje me sobra palavra
mas me falta o ar.

Hoje me sinto alguém.
Amor de mãe.
Amém.

Amei
e sou amado.

("Vocês, mães, são os meus amores!" E só esta frase já seria o meu melhor poema...)


Ígor Andrade

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quinta-feira, 9 de maio de 2013

É assim tão meu o teu nascer


Para minha mulher-amiga-companheira, meu maior amor, Rafaela Bezerra.
(Muita paz e saúde neste teu outro nascimento!)


Onde estou
pouco me interessa.
Não tenho pressa.
Mas tenho prosa.
Carrego tua saudade sempre
e hoje roubei pra ti uma rosa
dos jardins do uni-verso.

Sou um morador das janelas
que te desenha na madrugada.
Agora eu tenho tudo
muito depois do antes
de ter nada.

Poemo teus sorrisos infinitos
no nosso silêncio falante
tão nosso.

Você pode e eu posso
alcançar o pra sempre.

Pra sempre.
Sem parar.

Eu consigo te olhar
sem esquecer
que posso conseguir
e vou seguir
cada amanhecer
do que você olha.

Esqueça do mundo.
O cego ficou surdo
de tanto não saber lembrar.

Procurar
a mesma pergunta
é encontrar a mesma resposta.
Encosta
teu olhar no meu horizonte,
minha parte que é um todo,
meu parto de escrita,
minha ponte:
Com quem estou
é que importa.
O fato, o feto e a fonte.
Aorta
minha
no teu peito.

Não tem outro jeito.
Nosso amor tem feito
uma vida bem melhor.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Disse o mendigo


Riqueza mesmo
é sonhar
sem pobreza.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 24 de abril de 2013

A chuva não adiantou


O dia foi quente.
O dia do crente.
O dia sem dente.
O dia não mente
o dia.

Um monte de gente
não sente
o que sinto.

O dia é um labirinto
que começa na noite
mal dormida.


Ígor Andrade

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domingo, 7 de abril de 2013

Café forte e cabeça fraca


Ando me alimentando mal
mas não faz mal,
eu faço o bem
só não sei pra quem.

Talvez para os outros,
os que se alimentam bem.
Bem, eu acho.

Só não acho mesmo
o caminho de quem sozinho
passa fome.

O nome do estômago
tem outro nome
e eu não imagino
porque estou falando disso.

Há muito que sinto a barriga roncar
na miséria soberba de minha ignorância.
Uma mistura de isolamento moral
com afastamento do céu.

De certo meu domingo é o véu
que cobre o sono de quem é cego.


Ígor Andrade

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sábado, 6 de abril de 2013

Confusão do além


Onde está
o deus do outro
no outro deus?


Ígor Andrade

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sexta-feira, 5 de abril de 2013

Budweiser


Uma sede só.
Uma só sede.
Fico olhando a cama,
mas quero o balanço da rede.

A rede
...
que era verde
e que eu não vendo.

Esperança na varanda
relendo
o escuro da noite.

Noite de sede só.
Foice que corta o nó.
Do sangue ao pó.

Tenho dor.
...

Cerveja que tenta
não congelar numa brastemp.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 28 de março de 2013

Depois da chuva


Quantos anos tem março?
O que é a mentira na "semana santa"?
Quem cuida do calor?
O que o juízo disse pra saudade?
Quanto silêncio cabe numa xícara de café?



Ígor Andrade

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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Esqueletos


No calor o poeta
escreve melhor.
Suor que escorre no pescoço.
Garganta que não vive sem um nó.

Nunca estou só.
Minha mente é uma boa companhia.

Outro dia plantei sementes
com o olhar -
outro dia...
Já não me desespero mais.
Ando vivendo calmarias
(esquisitas).

Desde a explosão Cambriana
os crepúsculos são todos iguais
e diferentes.

Pouco se sabe.
Muito se sente.
Mente quem sente que sabe.

Não quero mais nada.

Eu perco o chão
e acho uma palavra.
Eu perco uma palavra
e encontro um céu.

O chapéu
de um velho
entende a vida que passou.
Hoje compreendo
a calvície de meu pai.

Tudo vai
e vem
como esta tarde.



Ígor Andrade

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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Dromedário


O dia amanhece
e eu também.
O povo vai pro trabalho
depois do sereno.
Tudo parece pleno
e eu tenho um plano.
Mas não posso contar.
Talvez um dia.
A poesia
vai dominar o planeta.
Talvez depois do sono.
Cão sem dono não morde.
Esse silêncio me lembra infância.
A conta da poupança vazia.
Minha janela sorri.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A história da vida


Perto do Natal
meu sono aumenta.
Ninguém nasce neste poema
antes de mim.

Dezembro vai chegando ao fim.
De certo tudo meio assim.
Sei lá.
Há muito que o muito nos sufoca.

O ano vai acabar.
O mundo já acabou faz tempo.

O que dizer do meu concretismo?
Um ismo a esmo...
O mesmo antes do abismo.
Idealismo sem idéias.

Não gosto do Natal.
O povo se reúne e não sabe porquê.
Apareceu na tevê então deve ser bom.
O povo não conhece Drummond
e acha que entende das tardes.

Num dia quente como este...
sinceramente eu torço 
para que ninguém se mate no trânsito.

Meu dorso 
pesando uma tonelada
pede paz.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Recorrente


Ando sonhando muito com meu irmão
chorando.
Falando um idioma esquisito.

Não consigo entender.
Não consigo esquecer.

A gente senta num banco velho
e pede um café pra nossa mãe.
Isso dura a vida toda.

Sonho doido.
Sou tão pouco.

A praça da calmaria foi abandonada.

Levo duas horas pra acordar.
O ar leva meio minuto pra sufocar alguém.

Meu irmão com cara de gente sofrida.
O cara que era o cara
não cura mais a ferida aberta.

Acordo mas o sonho não passa;
o sonho da praça.

Eu sei que meu irmão sofre
quando faz silêncio.
Sujeito difícil.
Edifício erguido na fraternidade imortal.

Um mar de lágrimas
que não seca com o tempo.
Embarcação com um medo profundo
de afundar.


Ígor Andrade

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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Litígio vespertino


No meu cansaço perdido
descanso.
Um bom descanso querido.
Encontro sagrado.
Alcanço outro cansaço sofrido.
Mundo parado.
Quem caminha sou eu
seja lá com que perna for.
Sabe-se lá com que dor se cresce.
Amadurece tudo que é verde.
Ver de perto tudo que é longe.
A constante nem sempre é miserável.
Fico aqui lembrando do quintal dos meus avós.
Mas hoje tudo é diferente.
Pela frente tanta coisa que parece gente.
Tanta gente que parece coisa.
Outra coisa é perceber que mudamos.
Ou amamos o que temos
ou largamos o que sonhamos.
Somos o que temos que ser agora.
Isso é tão libertador...


Ígor Andrade

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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Eucarionte


Hoje amanheci pela tarde
bem tarde.
Todo torto.
Algo que não consigo explicar.

Uma quarta-feira tipo segunda.
Tediosa feito papo de crente.
Chega a ser indecente
essa preguiça de não saber aceitar
agruras.

A vida pode ser dura.
Eu posso ser uma pedra.
E pronto.
Não estou pronto.

Uma batida de carro na esquina
e eu acordo sem querer.

O que estou fazendo da vida?
O que estou com a vida?

Ainda mal sei quem sou.
Banco velho de praça abandonada.
Poeira nos olhos das calçadas.
Nada me serve se a chuva cair.
Dormir para não sonhar.

Acho que estou perdendo a vontade de escrever.
A vontade de esquecer
da poesia.

Ponho no bolso mais um dia
e saio para caminhar.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Ocultação


A lua imensa
atravessa Júpiter
com uma certeza:
o espaço não tem ouvidos.

E meu silêncio esqueceu de mim.

Estou assim
meio cósmico.
E nunca falei tanto
sozinho.

Hoje até o cão mais vagabundo
encontrou uma sombra
na esquina.

É poético envelhecer
antes do poema?

Sinto um frio na espinha.
Uma folha em branco
tenta me ajudar.

Minha maior natureza sempre foi observar.
Sempre entendi a natureza de absorver.

(Segrego um segredo grego
de um gago gordo.
Só para entender o quanto
sou alienígena de mim.)

Sorver um café gelado.
Servir uma escrita quente.

Meu pulso mente
minha taquicardia.

A lua cheia.
A rua vazia.

Tudo fazia
uma beleza
tão nua...


Ígor Andrade



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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Relatividades


Gosto de caminhar pela tarde.
Acredito que sinto que sou a metade
de um dia.

Saio por aí descobrindo pleonasmos nas calçadas.

Calor compartilhado
por um exército de vencidos.

O mundo não acaba nunca.
A nuca e o suor
na parada de ônibus.
Poesia agoniada.

Sei de pouco da vida.
Sou o pouco da vida.
E nunca pisei na lua.

Só de maneira imprópria
se fala do futuro.
O muro.
É duro.
O murro.

Que maravilha é não pensar em religiões.
O budismo do meu pai
que não aprendeu a meditar.

O sem-teto da esquina
tem no tato a sua fome.
Barriga sem nome
que ronca na curvatura do espaço-tempo.

A sede do Agreste se traduz num pensamento:
O solo é de quem sabe imaginar presentes.

Sigo por aí
até chegar
num lugar qualquer.


Ígor Andrade

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