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quinta-feira, 30 de maio de 2013

Um texto oxigenado


Hoje acordei no fim do mês. Talvez, neste tal mundo. Imundo. Não mudo a cor da tarde e pouco lembro do que foi cedo. Sinto um medo de não sei o quê. Posso até me perder nesta fome toda de não saber pensar. Posso até pesar, antes de ter amado. Um poeta armado... de solidão. Então, hoje é feriado! Ninguém foi trabalhar, mas todo mundo tem preguiça. Todo mundo tem cobiça, e não quer trabalhar também amanhã. Santa missa que o padre fala com as paredes. Feriado ferido. Todo ser humano tem amigo. Eu não. Em vão. Se vão. O cifrão não fala a minha língua. Corpus Christi. O corpo insiste no balanço da rede. Todo nome e toda sede no altar sagrado do egoísmo. Povo besta! Povo sem lirismo. Muito ismo a esmo. Tudo no mesmo. Povo besta! Celebrar o corpo e o sangue de Cristo, pensando na farra da sexta. Este é o futuro cerebral. E eu acabei de acordar. Enquanto meu estômago cheio reclama de uma dor terrível no pé. Direito. Eu ainda acho que ando demais. Sem sair do lugar.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Fatos alheios


Todo dia há um nó e um desenlace. Nasce quem tem de nascer: laço. Morre tudo que estar por vir: cansaço. Amasso a folha de papel e tento outra vez o pensamento. Lento! Todo dia há um nó e um desenlace. O nó consiste em acordar. Abrir os olhos para dentro. E só aí perceber que viver é esse estranho ser do lado de fora... de algo. (Outra hora falo mais sobre isso, que também não entendo.) O desenlace é difícil - é tentar dormir... mais uma vez. Todo dia há um nó e um desenlace. Passe meia hora repetindo esta frase para si mesmo e veja que "o si mesmo" não pára nesta frase. Todo dia há um nó e um desenlace. No meio disso tudo, o epílogo de qualquer nada, que também acaba.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Primeira lei da termodinâmica


Uns aprendem a ouvir. Outros aprendem a escrever. O ouvido de um é o olho do outro. Há de se prestar atenção no que realmente faz sentido. Tenho sentido falta do que é real. Muitos lunáticos fanáticos apopléticos. A estética venceu a ética. Poética pobre sem pôr do sol. Acordei proparoxítona e esqueci do arrebol. Bem ou mal, sentir é descoberta abismal. Janela aberta pro quintal, da alma. A falácia do homem livre pede calma, mas eu nem ligo. O inimigo da escrita é a surdez. Outra vez, descubro a cegueira das mãos. Quem somos enquanto não temos? O que vemos quando não sentimos? Saber ouvir antes de responder, saber escrever antes de sentir; saber ser divino. A plenitude se disfarça num sorriso de canto. Outro encontro. E fim de conversa. Que pressa é essa que nós vivemos? Ainda sou do tempo em que o tempo não se preocupava com o tempo. Muito vento e poucos tantos. Esperanto no silêncio da noite. Somos servos da ignorância. Cervos com uma profunda ânsia de contemplar os leões. Sermões sem ser mães. O diabo entende do solo melhor que o pastor. O pavor de quem escreve está no colo da dislexia. Vou morrer acreditando que harmonia é a teimosia de um aleijado; quando falta algo a vida cria significado.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

SketchBook


A obsessão por originalidade e normalidade há muito deixou de ser neurose - virou morte. O povo se mata o tempo todo porque não se encontra. A anta agora bebe água filtrada. Antes de mais nada, julgo uma tarefa impossível ter uma varanda aconchegante. A rouquidão da rua emburrece a casa. Eu me esforço pra morar no passo inicial das coisas, e isso nem é a fórmula certa de nada. As causas da obesidade infantil é culpa da espada da mídia. Média sem medida. Mordida do macaco raivoso. E eu sinto que às vezes ainda me ilumino. Tempos outros. Da Vinci não morreu. Em algum lugar existe um lugar silencioso: dentro de nós. Mas hoje não. Urbano, demasiado urbano. Não me dou importância; vou envelhecer na desinteligência. Só acho que as pessoas precisam fazer o que escrevem. Ou não. Criar é tão comum. Lembro do tempo em que eu pedia de natal folhas em branco, mas ganhei bonecos de guerra. Tudo é especial quando se tem para quem contar. Contei as xícaras de café e os cães de rua nesta tarde. Já esqueci a quantidade. Tenho mania de rascunhos, e nunca entendi a obrigação da redação no vestibular. Não sei muito da vida, mas eu entendo que temos momentos - aqui e ali - raros com pessoas raras. A cara da vida é esperar pelo outro. No fim, somos todos geniais quando falamos sozinhos. O resto é gordura.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Os pés nus


Um mendigo na rua me diz para aceitar Jesus. A tarde silencia. Sentir fome é oração. Preciso aprender a calar antes do não. Não sei nada sobre os impérios corrompidos, e muito menos sobre os homens esquecidos pelas mulheres. Meus olhos estão cheios de visões noturnas. E este sujeito cheio desse jejum forçado. Tenho usado pouco do que aprendi quando criança. Esperança sentada na esquina, depois do tropeço de ontem. É, o fígado do povo cansou. E a vida sonolenta se conforma com qualquer forma que nos apresentam. O mendigo ainda me diz para aceitar Jesus. Cada um com sua cruz e neste pobre ser todos os odores do mundo. Um homem tão menos imundo faz poesia. O remorso que me pesa o dorso, num esforço quase dócil. Indômito caminhar em ruas de carros importados, que não se importam com a faixa de pedestres. A etérea altura das baixezas humanas. O herói covarde e a criança corajosa. Olhos familiares tão vastos quanto a tarde. A fluidez daquilo que jamais termina. A recordação mais rica do tempo cru. O mendigo me pediu para aceitar Jesus. Sordidez de espantalho moderno. Eu não entendo o vício das finitudes e todos os horrores da fecundidade.


Ígor Andrade

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sábado, 18 de agosto de 2012

Bordel Bordado


A Lígia Cargnelutti me convidou e eu aceitei. Hoje escrevi aqui.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O cão em mim


Os primeiros passos de um bocejo atrevido vêm com o silêncio branco de um quarto escuro. Antes de dormir, duas cervejas e uma lembrança: meu cão morreu. Parece que estou parado numa dor que dói mais quando todo mundo dorme. Estou sozinho olhando fotos de quando meu pequeno companheiro era filhote. Preciso mudar de juízo. Crescer ainda que sinta o decréscimo. O último osso foi ótimo, enquanto o átimo é boca seca. Átomo que se vai... Mudo de posição para sonhar maior. Quando sonho menor, tenho pesadelos; acordo assombrado e com fome. Levanto pra comer algo doce e me arrependo depois. Meu cão tinha doze anos e eu tenho trinta e um. Atravesso a madrugada como se tudo fosse olho. Me enxergo nas quietudes. Muito embora a escrita me acelere. Quero correr, quero pular, quero morrer. E quero morar na praia. A cidade me mata. Minha família precisa de mim, vivo. Vivo, em alguma vida, alheia. Sinto falta do meu animal. Coisa feia é esconder saudade. Ele era mais do que Jesus, pra mim. E o maior pecado é a distância. A morte separa pra sempre. Tudo vira pó(esia). A cruz de hoje é o prato cru do empanturrado. Fastio e mãos suadas. Transpira minha caneta velha. Sou um velho antes da velhice. (Quem me ensinou a escrever?) Cuido do verso para ele me educar. (Cadê Deus?) Em algum momento desta noite devo me sentir um sujeito melhor. Evolucionista mesmo é o sono.


Ígor Andrade

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terça-feira, 17 de julho de 2012

Quecé e Quecê



Silencioso, o sujeito observa. Um gato branco atravessa a rua escura. Tudo muda. E pode amanhecer logo. Antes que tudo se perca numa janela empoeirada, o olho encontra a folha, a mão encontra a espada. A arte salva a madrugada. E mais nada: guerra. Azul é a cor da palavra: terra. Algo pequeno lavra a teoria minimalista. O corpo nu é grande. Roupa suja se lava em casa, alheia. Coisa feia é não entender o que se veste. Visto o verso, e qualquer idéia que me agrade eu transformo num avesso infinito. Um olhar sem fins. Eu em mim, e no outro. Pouco do que se olha já é muito. Muito do que se pensa cai no esquecimento. Lamento esquizofrênico. Um dia a dia depois de noites. Ninguém dorme até sonhar direito. Causa sem efeito. Pausa no inconsciente. O caminho é longo para quem tem pernas curtas. O gato branco se foi, mas o muro ficou. 




Ígor Andrade

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segunda-feira, 2 de julho de 2012

2012 e um desabafo



Nesta época, eu prefiro evitar todo tipo de bondade declarada. Mais nada. E antes de tudo, se eu posso evitar, também prefiro dizer que não devo tolerar mais, qualquer forma de fundamentalismo, qualquer ismo a esmo. Por aí tem muito disso e muito mesmo. O diferente vive longe e cedo, de quem é tarde e perto. Desperto o (pre)juízo sem jeito. Dispenso o peito que não se abre. Hoje, e tão somente hoje, é preciso, e eu preciso, compreender o mal. Um animal que sou, tão humano e tão profano. O peso de um piano de chumbo me pesa a alma. A calma não quer conversar. Eu sofro da biologia das coisas, e vamos combinar que as ciências biológicas são poéticas demais. Lógica é verso fantasma. E a bíblia nada me diz. Assim como nada me dizem: o alcorão, o torá, o bhagavad gita, e todos os outros. "Drummond é meu pastor e nada me faltará." Quintana, Einstein, Sagan, Pessoa e tantos outros também. Ninguém entende minhas ironias. Vivemos num tempo que insiste em regressar pro medieval. Não merecemos todo o avanço científico e tecnológico. Nossos relógios se confundem com os ponteiros. Não sabemos ao certo o que somos e porque estamos aqui. O criacionista não se conforma com suas teorias. O evolucionista se deprime. Não acordei maniqueu, nem ateu, mas sou teu, Rafaela. Aquarela que nasceu pronta. A ponta do iceberg que afundou o titanic. O chilique do capitão. Um mendigo que atravessa na contramão, de sua fome. Desconfio de qualquer eloquência, seja ela qual for, sobre o que for. Fora o jocoso que enfrenta o manhoso. Agradável possível profundo de minhas epifanias. A suavidade das manhãs costumavam me encantar. Nunca existiu salvação!




Ígor Andrade

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quinta-feira, 28 de junho de 2012

Stradivarius



Para o grande amigo Fabio Rocha.


Meu amigo, meu herói, a poesia que separa também constrói. Tendo dito isso, o ácido que corrói o vício ainda é o verso. Inverso destruído por memória, e ninguém entende. Estende o braço pra vida e deixa ela te salvar. O progresso da gente vem no silêncio. Poeta bom é poeta morto, e ainda somos sementes. Se mente, não cresce. Se cresce, não sente. Se sente, não desce... do salto. Tempo alto na madrugada. O homem torto na janela, não está nela, ainda absorto, e mais nada. A alma vazia aquece o vazio. O quente que faz frio, até no deserto, de quem ama. Sou poeta e tenho pouca grana, e quando digo que sou poeta, me olham como um mendigo. Nunca quis esmola. E você? Eu quero é conhecimento, discernimento entre a folha em branco e o caderno fechado. Ponto. Pronto. Pranto. Prato. Escrevo e sinto fome. Qual é o nome de deus? Criatura e criador. A pintura que cria dor. Ninguém sabe de que cor estou falando. A imagem do homem corruptível não nos interessa. Quadrúpede sem pressa. Presa perdida no concreto. Fernando Pessoa foi um cara discreto e morreu do mesmo jeito. Santificado seja o sobrenome de quem vive por muitos, de quem vive como poucos. O santo não sente como eu sinto. Absinto e um brinde a verdadeira amizade. Milagre todo dia acontece. Seres humanos ainda na Idade Média, seja ela qual for. Solstício e equinócio de qualquer escritor. O ócio de quem vive do céu do outro, mesmo quando contempla o solo. O colo da namorada. O sossego da mãe. O papo do pai. O companheirismo do irmão. O violino de Vanessa-Mae. A quinta de Beethoven. As Valquírias de Wagner. E neste exato momento, não sei mais o que dizer.
Escrevo não por ser tão pensante; escrevo por teimosia. Não sei fazer outra coisa que não seja me questionar, neste mundo. Sinceramente achei que você ia querer ler isto.




Ígor Andrade

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domingo, 17 de junho de 2012

Um domingo como poucos



Uma verdade sobre os domingos: eles não sentem dor.
O domingo é um lobo solitário e silencioso, que ninguém percebe. Entre o lobo e a lebre, toda a fome de uma evolução. O domingo sim, mas a gente não. A gente é caça mesmo quando caça. A gente é o cão! Solidão é pra quem entende o que é soluçar. Coçar o queixo, de frente pro mar. Sussurrar pelas calçadas a saudade que só você conhece. Esquecer de quem te esquece. Caminhar. Até a esquina. Encontrar a dopamina e depois esbravejar. Velejar com a brisa do fim da tarde. O domingo arde e eu urdo. Absurdo é não me entender. Hoje minha mãe notou que fiz a barba, hoje eu quis crescer: observar e absorver o dia. Quem diria que tudo fosse assim? Limpo! O limo é o lema dos pecadores. Pescadores de ilusão derradeira. Amanhã é segunda-feira e eu não estou nem aí. Eu quero hoje algo pra mim, e desejo algo pra você. O domingo nem dói...




Ígor Andrade

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segunda-feira, 11 de junho de 2012

Segunda-feira



A academia, o banco, a casa lotérica, o supermercado e a clínica de fisioterapia. Todo mundo parece odiar todo mundo. O mundo não é esse todo. Só a moça que passa o rodo no chão que distribui sorrisos. Não que eu goste de todo mundo, porque sinto ódio também, mas tem algo muito errado aqui. Aqui, onde vivemos. Logo ali, nunca pensamos. Muito embora o normal é trocar o presente pelo futuro. O carro bate no muro. No escuro eu penso melhor. Ando muito cansado, estou só o pó. A poeira dos dias quer nos transformar em móveis. Seres humanos, mobília do lado de fora da casa. O pássaro quebra a asa. A vida é rasa. Não, a morte é funda. Não, não se confunda. Vivemos. E não oramos. O medíocre tenta saciar o insaciável. Eu fico triste. Tanta miséria opulenta e tanto coitadismo rico. Querem toda glória do universo, os desgraçados. Quero alguma paz pra mim, eu mesmo. Toda beleza que existe na justiça e sabedoria, se perdendo. Toda alienação desinteressante, se encontrando. Já não se fazem mais esquinas como antigamente. O semáforo quebrou e eu topei na mesma calçada de ontem. Todo mundo parece odiar todo mundo. E eu estou ficando cada vez mais lerdo.




Ígor Andrade


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segunda-feira, 21 de maio de 2012

Divagações de um acadêmico



Estabeleço a meta antes do mito. Eu admito, olhar qualquer rito e virar monstro. Não demonstro, piedade nem paciência. Tenho uma tendência absurda a seguir o caminho mais longo. Quem for fraco que fique pra trás. Me alongo no discurso, mas não me perco no curso da desgraça. A vida passa. Eu só faço o que quero. Espero mais de mim, e dos outros. Ficar louco nunca foi opção. Sanidade jogada no mato. Tudo morto, por aí! Por aqui tudo vive. O alívio do dia vem com a dor. Físico sem física. Mente sem mentir, pra si mesmo. O mesmo antes do mesmo. O máximo inalcançável. O mínimo e nós. Laços abertos. Braços fechados. Espaços infinitos. O inchaço do pedaço do peito do pedante. O instante, antes do estado. Peso pesado parado no tempo. A gota de suor pinga no chão. Mão forte. Vou longe quando estou distante.




Ígor Andrade

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sábado, 12 de maio de 2012

Rumo ao estúdio



O sábado pede calma. Não, o sábado pede alma. Palmas para o isolamento. Isola o lamento e abraça a arte. Música que já faz parte do futuro. Literatura que é toda parte de mim. Passei um passado em silêncio, e este presente silício exige qualquer coisa além do inacabável. Incansável perfeccionismo. Muito ismo para pouco esmo. Isso mesmo, tudo hoje, tudo nosso. Inexorável é o ouvido do tempo.




Ígor Andrade


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sexta-feira, 4 de maio de 2012

Zeitgeist naufragado



Perto de mim nasceu a urgência. Uma necessidade de não sei o quê e não sei quando. Uma conjugação de noites em que paro para pensar no que não tenho, no que não construí. Porque no fundo ninguém constrói. O concreto mente nas linhas. Entrelinhas acimentadas na imaginação. Mente que parece um verso. Um viver retilíneo que adora as curvas. A sombra na estrada enquanto o inverso de mim sou eu mesmo. Mesmo. Sem modo parece o outro. (Um minuto pro gole de café e a promessa que nunca farei.) Vida essa que parece a seguinte... Gente viva que parece morta. Aorta manhosa que parece solidão. Visão de um que entorta... a voz do outro. Tanta porta que não vai se abrir. Separação. Separo a reticência do vazio numa prateleira bem alta. Nunca alcançarei meu interior. Punho fechado que não quer mais escrever. Um desvio na noite e uma ilusão no retrovisor. Eu sou um reflexo no escuro. Ser humano impuro desde quando largou o ventre. Uma pressa uterina de paz. Longe daqui tudo é surdez. A rigidez dos dias que se esvaem, sem chuva, e a timidez das noites que nunca passam, sem lua. Minha janela é uma mulher nua, que não me quer. Tenho uma ligeira impressão que o silêncio joga xadrez com a cegueira, e não existe vitória neste mundo. Sou humano demais para entender qualquer coisa. O abstrato é uma ilusão acalorada no frio do deserto.




Ígor Andrade

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segunda-feira, 23 de abril de 2012

A diária origem da linguagem



Todo dia tenho de ouvir de mim mesmo que sou uma criatura que se cobra demais. Eu quero criar mais do que respiro. Quando crio pouco não admiro, o que é admirável no mundo. Criar, seja lá o que for, é minha salvação. A cruz que carrego na vida. Talvez até a cobrança eterna do que nem sei. Uma andança interminável. Uma dança difícil de acompanhar. Eu me cobro muito. Eu me cobro mudo, e quase sempre é por não ter dinheiro, e só por isso me sinto mais vazio do que de costume. Tem algo muito errado nesse entendimento, e só estou falando de dinheiro porque hoje descobri que minha mãe precisa fazer uma cirurgia. Haja cifrão pra cuidar de um joelho sem coração. Uma fratura do platô tibial lateral, uma lesão condral, um discreto derrame articular, uma condropatia patelar grau III, um pequeno cisto de Baker e um edema difuso do tecido subcutâneo: eis a conclusão da ressonância. Ignorância: eis a conclusão da minha incompetência. Eu me sinto estranho quando falo muito; ridículo quando me calo; grosseiro quando respondo; enganador quando tenho uma idéia; e preguiçoso demais quando tenho sono. Eu me sinto egoísta agora só porque escrevi esta bobagem. Parece que a melhor idade de qualquer ser humano é aquela em que os joelhos funcionam bem. Parece que quanto mais falo do outro mais penso em mim. Ando preocupado com tanta coisa que nem sei mais como me cuidar. Minha imunidade caiu. Minha humanidade adormeceu. Minha utilidade sumiu. Minha realidade desapareceu. Hoje sofro com a inanição da palavra, e isso dói.




Ígor Andrade

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sexta-feira, 30 de março de 2012

Tempus fugit



O dia de ontem foi muito curto. Admito qualquer pequeno surto, mas não engulo a solidão a dois. É quando penso na fragilidade de qualquer relação humana que eu entendo as calçadas desalmadas. Ou se caminha contra tudo ou se derruba por algum nada. E eu preciso me libertar desta frase. Fases factíveis de fetos famigerados. E eu preciso me libertar de tanta coisa. De tanta coisa que engasga o mais velho bêbado desiludido. Tenho entendido pouco da vida, e tudo que ela ainda não fez. Outra vez preciso caminhar pelas ruas. Memórias nuas, memórias tuas... Memórias! Eis-me aqui expondo esta intimidade intimidada, quem nem parece ser minha. E que de fato não é. Aponto pro céu das palavras, e vez ou outra acerto o pé, das interrogações. Mas de quem? Isso não me interessa. Não tenho pressa, pra nada, e no pior dos casos eu fico mudo, e mudo, e não me importo. Tranco a porta da sala de visitas. Vou pra rua. É na rua que me encontro, antes de alguém me perder. Pego todas as resenhas críticas que imagino e jogo por cima dos muros das casas. Eu me desfaço da minha privacidade. O íntimo enquanto último - recurso de um tempo sem compreensão. Onde vejo jardins florescendo, vou esquecendo das esquinas que passei. É, eu vou passar. E os carros passam. Os carros não merecem as ruas. Eu não mereço o silêncio. Um medo mórbido de tudo parar. Onde vou estacionar a prosa de minha morte? No norte do mar Egeu. A bússola moderna me desmoralizou. E enquanto eu perco a graça e o senso moral, um garoto me ultrapassa com seu cão de raça Chow-chow. Ou seria Shar-pei? Sei lá! Não entendo de nome "fêi"! Eu gosto do Pastor Alemão: "Deutscher Schäferhund". Nunca vou aprender a pronunciar isto. E o garoto do cão nunca vai saber para onde ir. Nunca vai saber o que quer da vida, esta pobre criatura. Lembro que certa vez eu disse: "A vida é dura, pra quem quer ser pedra." E no meio do caminho uma pedra me alcançou. Eu topo, mas não caio. O soslaio da minha vida é o meio-fio. Onde os vivos se afinam e os mortos desaparecem. "Cadáveres adiados", cadáveres odiados, e um mundo muito estranho, cheio de aspas e reticências...




Ígor Andrade


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quarta-feira, 14 de março de 2012

Café na xícara vermelha



No meio da tarde, um café. Já não sou mais o mesmo. Mesmo que eu procure ficar quieto, sempre encontro alguma palavra além de mim. Não me autorizo olhar e não comentar. Comentei outro dia. Quem diria que um dia eu seria tudo o que minha mãe não pensou que eu fosse. Quem diria que tanta gente fosse desistir de mim. Eu disse. Os idiotas vivem mais, e melhor. As coisas são corruptíveis. As pessoas mudam... de lugar. A verdade é que minha cabeça muda mais que o meu corpo. Se isso não é poesia, eu não sou nem gente. E meu cachorro dorme na minha cama de barriga pra cima. Achei que vocês deveriam saber disso. Dentro de mim vive um cão preocupado. Nunca sei se devo atacar ou correr pra urinar na árvore mais próxima. Enfim, quem tem café tem tudo. Tenho um mundo que muda na minha reflexão. O problema que nunca somos. A solução que nunca temos. A vida de quem não fomos. Os donos da tarde esquecem da noite, enquanto eu esqueço da concordância verbal. Bem ou mal, eu só posso errar. O certo é a seta que não tem endereço. Moro aonde minha imaginação me levar. Ninguém sabe nada de si até topar no meio da rua e quase ser atropelado por um ônibus lotado de ignorantes. Desconheço a existência da prudência em lugares com muita luz. É no obscuro que me (des)encontro. Toda tarde vou na cozinha pegar café, e quase sempre lasco a testa no armário perto da pia.




Ígor Andrade

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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

É inefável e é tudo nosso



A ponta da cama aponta pro ponto da noite, e no infinito das reticências se perde. Eu me perco em cada lembrança das gotas de suor, e o pior, é que nunca vou esquecer. O banho lava alma, mas não acalma ninguém. Existe alguém em outro chuveiro. Existe uma fonte no além. Tenho calma em algum paraíso. Se não for isso um inferno serei. A madrugada passa quietinha no sorriso que não é meu. O chuvisco fala baixinho no vento que não me pertence. E as paredes do meu quarto desfilam um branco ensurdecedor. Antes o que era dor virou propósito, e a propósito, eu não estou aqui. É de propósito que fujo para o outro lado da cidade. É lá que me prometeram paz. Tudo que se desfaz num minuto dura uma eternidade na mão do poeta. Tenho o que preciso para não ser mais um motivo de vergonha para família. Tenho tudo para não impressionar ninguém. Tenho folhas em branco e canetas maduras. Me amargura querer outro mundo sem ter café nessas horas.




Ígor Andrade

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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Meu olho esquerdo


Se sou mau ou bom sujeito, grande ou pequeno, forte ou fraco, o tempo dirá. Assim como não dirá o que quero muito saber. O tempo escreve um poema calado na sala vazia dos esquecimentos. E eu preciso parar com essa coisa toda de tempo. É sério; ele nem lembra de mim. Me sinto um palerma quando me analiso, mas hoje tudo está misturado demais, e transparente demais, tudo ao mesmo tempo. E olha eu falando de tempo outra vez. Parei. Mas continuo. Não preciso esperar pela passagem do tempo para perceber que a denominação de sujeito é injusta e absurda sem a denominação de predicados. Esqueci de predicar a precisão, e já me sinto esperto novamente. A nova mente é a mesma da antiga, mas atualizada de si mesmo. O sujeito é sem jeito quando tenta parecer humano. Ser humano é epistemologia de outro mundo. Esqueci do nome do meu planeta. Sou um lerdo que pode ficar cego. Parti do interior pro exterior num minuto. Eu posso não mudar muita coisa nesta noite, mas mudo o amanhecer sem querer. Até mais tarde alguém vai se encontrar nessas palavras...


Ígor Andrade

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