sexta-feira, 5 de abril de 2013

Budweiser


Uma sede só.
Uma só sede.
Fico olhando a cama,
mas quero o balanço da rede.

A rede
...
que era verde
e que eu não vendo.

Esperança na varanda
relendo
o escuro da noite.

Noite de sede só.
Foice que corta o nó.
Do sangue ao pó.

Tenho dor.
...

Cerveja que tenta
não congelar numa brastemp.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 28 de março de 2013

Depois da chuva


Quantos anos tem março?
O que é a mentira na "semana santa"?
Quem cuida do calor?
O que o juízo disse pra saudade?
Quanto silêncio cabe numa xícara de café?



Ígor Andrade

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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Esqueletos


No calor o poeta
escreve melhor.
Suor que escorre no pescoço.
Garganta que não vive sem um nó.

Nunca estou só.
Minha mente é uma boa companhia.

Outro dia plantei sementes
com o olhar -
outro dia...
Já não me desespero mais.
Ando vivendo calmarias
(esquisitas).

Desde a explosão Cambriana
os crepúsculos são todos iguais
e diferentes.

Pouco se sabe.
Muito se sente.
Mente quem sente que sabe.

Não quero mais nada.

Eu perco o chão
e acho uma palavra.
Eu perco uma palavra
e encontro um céu.

O chapéu
de um velho
entende a vida que passou.
Hoje compreendo
a calvície de meu pai.

Tudo vai
e vem
como esta tarde.



Ígor Andrade

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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Dromedário


O dia amanhece
e eu também.
O povo vai pro trabalho
depois do sereno.
Tudo parece pleno
e eu tenho um plano.
Mas não posso contar.
Talvez um dia.
A poesia
vai dominar o planeta.
Talvez depois do sono.
Cão sem dono não morde.
Esse silêncio me lembra infância.
A conta da poupança vazia.
Minha janela sorri.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A história da vida


Perto do Natal
meu sono aumenta.
Ninguém nasce neste poema
antes de mim.

Dezembro vai chegando ao fim.
De certo tudo meio assim.
Sei lá.
Há muito que o muito nos sufoca.

O ano vai acabar.
O mundo já acabou faz tempo.

O que dizer do meu concretismo?
Um ismo a esmo...
O mesmo antes do abismo.
Idealismo sem idéias.

Não gosto do Natal.
O povo se reúne e não sabe porquê.
Apareceu na tevê então deve ser bom.
O povo não conhece Drummond
e acha que entende das tardes.

Num dia quente como este...
sinceramente eu torço 
para que ninguém se mate no trânsito.

Meu dorso 
pesando uma tonelada
pede paz.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Recorrente


Ando sonhando muito com meu irmão
chorando.
Falando um idioma esquisito.

Não consigo entender.
Não consigo esquecer.

A gente senta num banco velho
e pede um café pra nossa mãe.
Isso dura a vida toda.

Sonho doido.
Sou tão pouco.

A praça da calmaria foi abandonada.

Levo duas horas pra acordar.
O ar leva meio minuto pra sufocar alguém.

Meu irmão com cara de gente sofrida.
O cara que era o cara
não cura mais a ferida aberta.

Acordo mas o sonho não passa;
o sonho da praça.

Eu sei que meu irmão sofre
quando faz silêncio.
Sujeito difícil.
Edifício erguido na fraternidade imortal.

Um mar de lágrimas
que não seca com o tempo.
Embarcação com um medo profundo
de afundar.


Ígor Andrade

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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Litígio vespertino


No meu cansaço perdido
descanso.
Um bom descanso querido.
Encontro sagrado.
Alcanço outro cansaço sofrido.
Mundo parado.
Quem caminha sou eu
seja lá com que perna for.
Sabe-se lá com que dor se cresce.
Amadurece tudo que é verde.
Ver de perto tudo que é longe.
A constante nem sempre é miserável.
Fico aqui lembrando do quintal dos meus avós.
Mas hoje tudo é diferente.
Pela frente tanta coisa que parece gente.
Tanta gente que parece coisa.
Outra coisa é perceber que mudamos.
Ou amamos o que temos
ou largamos o que sonhamos.
Somos o que temos que ser agora.
Isso é tão libertador...


Ígor Andrade

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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Eucarionte


Hoje amanheci pela tarde
bem tarde.
Todo torto.
Algo que não consigo explicar.

Uma quarta-feira tipo segunda.
Tediosa feito papo de crente.
Chega a ser indecente
essa preguiça de não saber aceitar
agruras.

A vida pode ser dura.
Eu posso ser uma pedra.
E pronto.
Não estou pronto.

Uma batida de carro na esquina
e eu acordo sem querer.

O que estou fazendo da vida?
O que estou com a vida?

Ainda mal sei quem sou.
Banco velho de praça abandonada.
Poeira nos olhos das calçadas.
Nada me serve se a chuva cair.
Dormir para não sonhar.

Acho que estou perdendo a vontade de escrever.
A vontade de esquecer
da poesia.

Ponho no bolso mais um dia
e saio para caminhar.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Ocultação


A lua imensa
atravessa Júpiter
com uma certeza:
o espaço não tem ouvidos.

E meu silêncio esqueceu de mim.

Estou assim
meio cósmico.
E nunca falei tanto
sozinho.

Hoje até o cão mais vagabundo
encontrou uma sombra
na esquina.

É poético envelhecer
antes do poema?

Sinto um frio na espinha.
Uma folha em branco
tenta me ajudar.

Minha maior natureza sempre foi observar.
Sempre entendi a natureza de absorver.

(Segrego um segredo grego
de um gago gordo.
Só para entender o quanto
sou alienígena de mim.)

Sorver um café gelado.
Servir uma escrita quente.

Meu pulso mente
minha taquicardia.

A lua cheia.
A rua vazia.

Tudo fazia
uma beleza
tão nua...


Ígor Andrade



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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Relatividades


Gosto de caminhar pela tarde.
Acredito que sinto que sou a metade
de um dia.

Saio por aí descobrindo pleonasmos nas calçadas.

Calor compartilhado
por um exército de vencidos.

O mundo não acaba nunca.
A nuca e o suor
na parada de ônibus.
Poesia agoniada.

Sei de pouco da vida.
Sou o pouco da vida.
E nunca pisei na lua.

Só de maneira imprópria
se fala do futuro.
O muro.
É duro.
O murro.

Que maravilha é não pensar em religiões.
O budismo do meu pai
que não aprendeu a meditar.

O sem-teto da esquina
tem no tato a sua fome.
Barriga sem nome
que ronca na curvatura do espaço-tempo.

A sede do Agreste se traduz num pensamento:
O solo é de quem sabe imaginar presentes.

Sigo por aí
até chegar
num lugar qualquer.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Pássaros cantando no escuro


Amanhece quando
o tempo não passa.
E tudo parece o de sempre.

Muito do que muda na gente
não muda nada no outro.

Sou um bocejo teimoso
e uma tristeza qualquer.

Sinto fome
e preguiça.
E sinto preguiça
além de tudo.

Ignoro a cama
porque tenho medo de sonhar.
Ignoro a cozinha.
porque acabou o presunto.

Amanhece agora
que ainda sou noite.

Não esqueço de nada.
Nem da vida.


Ígor Andrade

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sábado, 17 de novembro de 2012

O estudo das proteínas


Acordei um poema na tarde de sábado
só pra entender direito que não sei acordar.
Levantei, peguei o café sem manhã e fui ler.
Percebi que sou estranho e estúpido.
Deveria sorrir para janela e brincar com minha cachorra.
Apenas consigo imaginar formas de voltar pra cama.
Ontem esqueci de limpar meu quarto.
Minha coragem atingiu trinta e um anos.
Aliás ontem não fui gente.
Eu e minha enxaqueca temos um caso de amor.
Moro no calor deste dia
e desaprendi a escrever poemas.
Vou ligar para minha mulher agora
e exigir sua presença nesta solidão.
Amar é isso: procurar o outro
antes do outro existir.


Ígor Andrade

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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Tinta preta


A noite veio como sempre.
E sempre na veia a noite.

À noite tudo vem.
É simples assim.

Esperamos da vida
uma outra
vida
e nunca percebemos
que nós somos
um outro
morto
toda hora.

Agora
que a noite veio
eu vou
sabe-se lá para aonde.

Somos onde
estamos.
E quem sabe
nunca seremos o que sabemos.


Ígor Andrade

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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Aquilo que subsiste


O que é tudo?

Talvez seja alguém mudo
de vez em quando.

Silêncio...

Durmo no mesmo
sem sair do mesmo.
Acordo no íntimo
de não sonhar que preste.

Agreste nos olhos.
O teto é falso.

Pouca sombra.
Muita sobra.
Me assombro com o peso das paredes.

Meio-dia.
Uma azia.
Nada fazia
sentido.

E a tarde que vem?
Não entendo.
E o entendimento qualquer?
Não vivo.


Ígor Andrade

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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Agostiniando a tarde


Inspirar dó
é expirar dor.
Respirar só.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Fatos alheios


Todo dia há um nó e um desenlace. Nasce quem tem de nascer: laço. Morre tudo que estar por vir: cansaço. Amasso a folha de papel e tento outra vez o pensamento. Lento! Todo dia há um nó e um desenlace. O nó consiste em acordar. Abrir os olhos para dentro. E só aí perceber que viver é esse estranho ser do lado de fora... de algo. (Outra hora falo mais sobre isso, que também não entendo.) O desenlace é difícil - é tentar dormir... mais uma vez. Todo dia há um nó e um desenlace. Passe meia hora repetindo esta frase para si mesmo e veja que "o si mesmo" não pára nesta frase. Todo dia há um nó e um desenlace. No meio disso tudo, o epílogo de qualquer nada, que também acaba.


Ígor Andrade

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terça-feira, 23 de outubro de 2012

Toca o telefone do meu vizinho


Toca o telefone do meu vizinho.
Ninguém atende.
Ninguém entende
o que tem de atender.

O que tem de ser entendido
às vezes é esquecido
por alguma surdez.

Um pedido:
silêncio.
Parece muito.

Parece pouco:
o que peço.

Só queria ler meu livro na varanda
sem o toque de um telefone.
O nome disso é velhice.
O resto é só a tarde.

A mesma tarde que passa...

Onde estão todos, que não atendem?
Onde estou eu, que não entendo?

O toque do telefone é esperança.

Alguém quer ser atendido.
Ser entendido é outra história.


Ígor Andrade

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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Terapia do cão


Escrevo para não
enlouquecer
o outro.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Libelo


O sonho do sábio.
O sonho do louco.
Quem sonha pouco?


Ígor Andrade

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terça-feira, 16 de outubro de 2012

E hoje ainda tinha dentista


Numa xícara de café
encontra-se pesadelos.
Portas que se fecham
no escuro do dia.

Desenho um plano empresarial
pra enganar meu filho
que ainda não nasceu.
O que cresceu na madrugada
sumiu.

O infinito da janela
é um quadro que não sei pintar.
A suadeira nas mãos
que não controlo.

Ao nada invejo a insensibilidade
dos bancos das praças.
Muita história e muito frio.

Meu mundo é um esboço apagado.
Peso no dorso de um homem afogado
na superfície das coisas.

Confesso que tenho medo
do sono da tarde.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Primeira lei da termodinâmica


Uns aprendem a ouvir. Outros aprendem a escrever. O ouvido de um é o olho do outro. Há de se prestar atenção no que realmente faz sentido. Tenho sentido falta do que é real. Muitos lunáticos fanáticos apopléticos. A estética venceu a ética. Poética pobre sem pôr do sol. Acordei proparoxítona e esqueci do arrebol. Bem ou mal, sentir é descoberta abismal. Janela aberta pro quintal, da alma. A falácia do homem livre pede calma, mas eu nem ligo. O inimigo da escrita é a surdez. Outra vez, descubro a cegueira das mãos. Quem somos enquanto não temos? O que vemos quando não sentimos? Saber ouvir antes de responder, saber escrever antes de sentir; saber ser divino. A plenitude se disfarça num sorriso de canto. Outro encontro. E fim de conversa. Que pressa é essa que nós vivemos? Ainda sou do tempo em que o tempo não se preocupava com o tempo. Muito vento e poucos tantos. Esperanto no silêncio da noite. Somos servos da ignorância. Cervos com uma profunda ânsia de contemplar os leões. Sermões sem ser mães. O diabo entende do solo melhor que o pastor. O pavor de quem escreve está no colo da dislexia. Vou morrer acreditando que harmonia é a teimosia de um aleijado; quando falta algo a vida cria significado.


Ígor Andrade

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terça-feira, 2 de outubro de 2012

Café gelado


O sentido da hora chora.
Nasce agora outro alguém
em algum lugar.

Tudo fora
e eu no meio
a sussurrar pegadas.

Foi-se embora o dia.
Ninguém mais saberia acordar.

Fim - mas começo.
Eu começo
a acreditar em outras coisas.
Mais tarde estará mais fresco.

Aurora distante.
(O que quero eu exatamente dizer?)
Uma gata no cio desespera os telhados.
Hoje ninguém vai dormir.

O homem é mesmo um bicho muito doente.
Se muito fala muito sente.
O presente dos deuses talvez seja silenciar matutices.

Uma dor de barriga sagrada
na madrugada.
O médico do tempo é o interior.


Ígor Andrade

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