quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O desprezo é uma reza muda


Cada vez mais difícil escrever.
Cada vez mais difícil esquecer.
Quem sou.

Atordoado, largado e besta.
Espírito de leão aleijado.
Um pensamento dormindo numa cesta
de pão
velho.

E como sempre
os outros vão.
E eu fico
velho.

Quem eu quero perto
me quer longe.
Quem eu trato bem
me agrada por obrigação.
É isso ou fiquei retardado.

Não deveria, mas devo...
escrever no caderno que escrevo
todos os dias.
E todo dia é uma vida longa demais.
O que eu não faço é o que ela faz.
Não quero dizer mais nada.

Passo o dia pensando em como não pensar no dia que passa.

Sou facilmente esquecido
e esqueço como quem tem Alzheimer.

Mais um ano vai acabar
e eu sozinho como sempre
com uma cerveja na mesa
e umas folhas em branco na cama.

Minha cachorra sabe o que ama
e é uma boa companhia.


Ígor Andrade

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Um comentário:

Marcelino disse...

As folhas em branco logo estarão escritas com poemas bem pensados como este que anuncia um ano a mais, talvez não um ano novo como idealizamos, mas uma ano a mais em nossas vidas, com possibilidades que não devemos dispensar: publicar um livro, pintar um quadro, fazer um filho...