segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Calminex e diclofenaco


Segunda-feira.
Meu corpo dói
e eu procuro um herói
que perdi na infância.

Preciso vomitar a ânsia
de toda dor
que minha cabeça constrói.

O rato rói
a roupa das escolhas
que não faço.

No infinito vazio de qualquer laço
aquele pequeno espaço
entre acordar e não dormir.

Inacabável existir
neste cansaço absurdo,
absorto, quase morto,
quase surdo...
sem insistir no que pede insistência.

A vida vai consumir
cada sonho que não é meu
sem pena e paciência.

Cada sonho que não é meu.

Minha poesia me fodeu.
E não estou pronto.
Nem Galileia
nem Galileu.
Deserto
de certo.
Ponto.

Um acerto no aperto
de cálculos errados.

Algo se perdeu.
Algo me perdeu.
Tudo ferrado.

E o que foi feito?

Faz calor no rosto.
Faz frio no peito.
Faz tempo que não sei o que é coração.

A vida vai.
Este poema, não.

Nascer é um labirinto verde
que acaba com qualquer sorriso amarelo.

Crescer é morrer num castelo
de areia.
Coisa feia!
Caminhar sempre pro mesmo lugar.

Ansiedade causa úlcera
e faz chorar.
Mas eu não choro.
Burrice causa arrogância
e eu imploro
por paz.

Faz pouco tempo
que o muito tempo me faz
de pouco.

O método de exaustão de Arquimedes
num aborto literário de um louco.

Fim.


Ígor Andrade

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Um comentário:

Marcelino disse...

Este belo texto desmente o comentário que fiz no poema Amanda: ali eu dizia que tu constrói bons textos quando tu te jogas no espaço do outro, quando escreves para outrem; mas este texto - que está muito bem estruturado -nega isso: a partir de teus sentimentos e pensamentos tu fazes também poemas excelentes.