quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Diário não diário


As primeiras horas do dia começaram à tarde. E eu acordei. Reconheço que sou um sujeito nada cedo. Abri um olho de cada vez. Hoje não tive medo (da morte) e nem fome. Sobrenome: Não sei direito o que sentir. Não vou mentir (porque nunca minto) e muito menos medir, o que não se mede - o que não se mente. Hoje o dia, já no meio, parece que não vai acabar (porque nunca acaba). Moro perto do mar. No meio de gente mal educada. Gente que acha que não sirvo pra nada, e morre de medo da minha barba de mendigo. Faço pouco pelo mundo, mas digo... tudo o que sinto. Não me sinto bem. Também não me sinto mal. Sinto uma coisa que não se explica. Mas o sorriso de minha mãe descomplica até as equações mais obscuras da NASA. Minha mãe deveria estar sempre em casa... quando acordo. E eu acordo só pra saber de onde venho. De onde veio... minha poesia. Para aonde vou nunca importa. Nem a porta que se fecha quando abro a janela. A vida pode ser bela, quando se conhece a verdade de que cada dia é o último. E isso não é pessimismo. Nem eufemismo. Determinismo é para os fracos. E cada ser humano só precisa sobreviver. O resto é uma piada contada por um velho gago que só fala inglês. Um dia de cada vez... sem confundir as horas aleijadas pelo desânimo. Insatisfação não é saturação. E eu sei disso, enquanto não sei de droga alguma. Ansiolítico é outro papo. Engolir sapo é uma profissão de carreira internacional. E ninguém me interna. O que os outros sabem de mim? Por que não nasci numa família italiana? Quanto realmente vale o seu trabalho? Engordamos na tristeza ou entristecemos com a gordura? O que significa sobriedade para uma criança surda? Tenho perguntas demais. Eu nunca cresci.
...
Pensei que nunca mais escreveria, mesmo escrevendo todos os dias...


Ígor Andrade

_______________________________________________________________________________

2 comentários:

Marcelino disse...

É verdade: todos os dias escrevemos algo no texto do mundo e, para compor esse livro, não são necessários instrumentos como caneta, lápis ou teclado; para escrever no diário da vida basta viver, viver com intensidade. Belo diário.

Luiz Guilherme Libório Alves disse...

Onde anda Igor? Lancei meu primeiro livro, herói.