sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Herói sem face


Eu moro no bocejo do meu quarto.
Onde enterro os sonhos mais impossíveis.

Amanheço a raiva da janela sem cortina.
Porque vivo a escuridão poética dos fracassados.

Aqui já fui até escritor.
Vendi livros e dei autógrafos.
Agora construo coisas
que provavelmente nunca usarei.
Acho que eu sempre quis ser mecânico.

Tenho quatro reais na carteira
e umas poucas moedas no bolso da mochila.
Não tenho amigos
nem inimigos
e só uso pijama escuro.

Meu quarto mora em mim
como um templo perdido da Índia
mora nos ratos.


Ígor Andrade

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2 comentários:

NãoSouEuéaOutra disse...

Magnifico!!
é assim a desolação. a desilusão de um mudo construído em sonhos frágeis.

levarei aqui o seu poema... acrescentarei Heroí(na...

Marcelino disse...

Em seu Poema sujo", Ferreira Gullar também diz "a cidade está no homem
mas não da mesma maneira
que um pássaro está numa árvore
não da mesma maneira que um pássaro
(a imagem dele)
está/va na água
e nem da mesma maneira
que o susto do pássaro
está no pássaro que eu escrevo" Lindo isso, não?