quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O desprezo é uma reza muda


Cada vez mais difícil escrever.
Cada vez mais difícil esquecer.
Quem sou.

Atordoado, largado e besta.
Espírito de leão aleijado.
Um pensamento dormindo numa cesta
de pão
velho.

E como sempre
os outros vão.
E eu fico
velho.

Quem eu quero perto
me quer longe.
Quem eu trato bem
me agrada por obrigação.
É isso ou fiquei retardado.

Não deveria, mas devo...
escrever no caderno que escrevo
todos os dias.
E todo dia é uma vida longa demais.
O que eu não faço é o que ela faz.
Não quero dizer mais nada.

Passo o dia pensando em como não pensar no dia que passa.

Sou facilmente esquecido
e esqueço como quem tem Alzheimer.

Mais um ano vai acabar
e eu sozinho como sempre
com uma cerveja na mesa
e umas folhas em branco na cama.

Minha cachorra sabe o que ama
e é uma boa companhia.


Ígor Andrade

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domingo, 14 de dezembro de 2014

Awake


Tem gente que morre no domingo.
Seres humanos que não dormem e também não vivem.
Tem gente que nasce no domingo
ou perde a virgindade enquanto os pais estão na praia.
Tem gente que passa o domingo dormindo
enquanto não sonha.
Tem domingo que tem gente.
Poesia dormente na calçada misteriosa
de uma vida sem graça
que não passa.
Tem o que existe.
Tem o dia.
E tem quem não escreve o que sente.
O verbo dos amantes
tem sol demais
e o silêncio do domingo
não está à venda.


Ígor Andrade

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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Aponeurose epicraniana


O tempo é suicídio.
E o seio do dia não tem forma.

É o corpo dessa rotina que me faz crescer.

Tenho tempo.
Perco tempo.

Todo calor de hoje será recompensado.

A esperança é o berço da desgraça
e o amor não importa mais.

Papai Noel morreu em Alcatraz
e as músicas natalinas me causam depressão.

Aquela sensação estranha de mar em fúria...

Cadê a motivação que estava aqui?


Ígor Andrade

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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Para o Mestre Fabio Rocha


(Leiam A Magia da Poesia.)


Poesia
não vende
porque não tem silicone.


Ígor Andrade

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Espacial não especial


O futuro me enche o saco
sempre antes de dormir.
Não posso fingir que sou
o que o outro pensa que quer.
Não quero essa vidinha
de planejar planos desse planeta.
Eu posso esquecer de tudo
ou tudo pode não me esquecer.
Não sei quem fui
e se fui já não sou mais.
O cão que corre atrás do próprio rabo.
O passarinho na gaiola do vizinho.
O rato morto na esquina da Costa Barros.
Não me interessa o deus da minha mãe.
Muito menos a doutrina militar do meu pai.
Eu apenas escrevo e não devo condomínio.
À noite eu morro e nem sei se quero acordar.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Não vi o degrau


O homem
sobe
quando sabe.


Ígor Andrade

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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Poema de segunda


O dia não é diferente.
Mas os olhos de criança se renovam.
A vida é invenção incansável.
Sempre.

Procurar um sorriso num desconhecido
não deveria ser obrigação de ninguém.
Ódio não faz bem pra pele.

Uma calçada sim outra não.
O mundo está cada vez mais sujo.
Muita gente pedindo perdão.

Deus é um carro do ano que buzina como se não houvesse amanhã.
A contramão da rua enfrenta a cegueira dos homens.
A miopia beira a faixa de pedestres.

Todo nascimento oculta poesia na maternidade dos silêncios.
Tudo que não cala não pode colar o vazio.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Simple man


Para Thiago Andrade, Magela Osterno e Igor Macedo.
(Antes ou depois do poema escutem Simple Man de Lynyrd Skynyrd.)


Qual o sentido da vida?

Sentir
sem fazer sentido.
E seguir.

Porque homem que é homem caminha pra frente.

E lá na frente
a gente compreende
que só sabe para onde vai
e só sabe o que a gente quer
quando descobre de onde vem.

Não queremos.
Nascemos
sem querer.
E morreremos sem entender
todo sentido de destruição humana.

O homem é um bicho que implica com a guerra.
O homem enterra
tudo que ama.

A mesma religião que salva
também engana
e mata.
A mesma ciência que não explica
também complica
e falha.

Quem aprende a lutar vive em harmonia? Com o quê?
É preciso precisar para perceber?

Ah... Eu acho que tanto faz.

O homem que criou o prêmio Nobel da Paz
foi o mesmo infeliz que inventou a dinamite.

Explodir é a evolução?
Ter ou não a noção
de mandar tudo pelos ares.

Amores, favores, amares...
Há males
que vêm para o bem.
O dia vem
a gente querendo ou não.
Ponto.

Viver é consciência.
Viver é estar pronto.
Estar vivo é peso.
...
Seguir com leveza
talvez seja
o sentido
sem fazer sentido.

A vida é assim:
A gente pega o que sabe e tenta reaprender.
Pega tudo que fizeram com a gente e tenta não fazer
com o outro.

Somos os outros
e os mesmos.
Um tal de nós mudos
num presente sem futuro
mas com um passado chato.

Somos sonhos que não vamos realizar.
(A gente sonha pra dormir ou dorme pra sonhar?)
Ou vamos realizar o que nunca sonhamos.

Somos o que não dizemos,
somos o que não somos
e isso não faz muita diferença no fim da estrada.

A estrada é longa e passa rápido.
E parece que depois dos trinta
gastamos quase tudo que ganhamos
com farmácias, multas e prestações de qualquer coisa.

Até lá eu só sei
que os dias bons
(que são poucos)
podem superar os dias ruins
(que são muitos).

Os melhores humanos não morrem nunca.


Ígor Andrade

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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Thyréos


A parede branca
do quarto branco
na folha em branco
de uma lembrança pálida.

A solidão é válida
mas também é negra.


Ígor Andrade

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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Qualquer sorriso


A sensibilidade
torna tudo
possível.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Amanda


Para minha querida amiga Amanda.


Amanda
não manda
em mim.

Mas poderia...

Amanda tem sido a alegria
dos meus dias.

Meus dias
que pareciam os mesmos
não são mais os mesmos
com a ajuda de Amanda.

Amanda anda
como quem não quer nada.
Uma companheira. Uma parceira.
Uma grande sombra nesta caminhada.

Amanda é
eterna em seus silêncios.

E eu preciso desses silêncios
como a voz precisa do ouvido.
E tenho ouvido
de tudo neste mundo.

Às vezes ou quase sempre
este mundo só quer nos atrasar,
nos apavorar e nos lembrar
que somos humanos.
Apenas humanos.

Mas Amanda não pertence ao tempo dos derrotados.
E os derrotados não sabem que toda vitória demora uma vida.

Amanda é ida
sem volta
no meu deserto.
Amanda longe.
Amanda perto.

Amanda é água fresca
na sede de quem sabe crescer.

Amanda é ser.
"Nunca estar."


Ígor Andrade

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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Por que converso com minha cachorra?


O que querem de mim as pessoas que não conheço?
O que esperam os outros do meu silêncio?
O que significa de fato a saudade?
Quem eu conheço de verdade?
Quanto vale trinta e três anos de idade?
Quem sabe mais da vida que as esquinas?
O que é caminhar sem rumo?
Por que dormir é bom se existe pesadelo?


Ígor Andrade

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sábado, 22 de novembro de 2014

Poema de todo mundo


Onde estão os meus amigos?

Amigos?
Meus?
Onde?

Tudo que tenho
não tenho:
palavras
(que ninguém lê).


Ígor Andrade

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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Moluscos


Morre a tarde.
Chuva fina.

Faço vista grossa para a preguiça.

A casa observa os passos
que não dou.

Não posso
(e nem consigo)
descansar.

Sistema nervoso central
na periferia.

Uma paz estranha e manhosa...

Seja o que qualquer deus quiser!


Ígor Andrade

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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Sala de (não-) estar


O retrato da sala me cala.

Tanta coisa que deveria ser.
Tantos quantos em mundos poucos.

O indiscutível "não somos"!

O que nunca teremos...

Mundo nenhum deveria fotografar momentos inesquecíveis.

Fica proibido desde já
o sofá nesta posição.


Ígor Andrade

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Dubitare


Não posso mais.
Não passo mais.
"Pra mim tanto faz"
se não quero fazer.

Eu quero esquecer
o que não posso mais.
Porque não passo mais
e tudo isso não faz
o menor sentido.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

"Apertamento"


O apartamento aperta o peito.
A vida precisa de espaço.

A tarde liberta a alma.
Caminhar é preciso.

A mente controla o corpo.
Toda força depende do foco.

Para cada homem perdido
existe uma raça de cão correspondente.


Ígor Andrade

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Não manda


Na frieza da ausência.
O calor da lembrança.
O cheiro que me resta.
Beijo a testa
do que é solidão.

Não existe prisão
que canse o poeta.
A mulher linda é uma linha reta
que amansa deuses de outro mundo.

E lá no fundo
este mundo não pára.
E não existe cara
nem hora certa para o sofrimento.

Não preciso da pressa
nem do lamento
das tardes presas na garganta.
Não sou um homem.
Sou uma anta
que aprendeu a escrever.

A saudade é uma conversa boa
que não quer perecer
no suor e na dor da lucidez.

Dessa vez
cada sorriso pacifica o perigo
e todo cansaço é o abrigo
de quem sabe amar o que quer.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Toda "sexidez"


Um dia te perdi.
Um dia te encontrei.
Um dia te toquei.
Um dia te mordi.

Um dia
é o pedaço do nosso ser
que mastigo saborosamente
até hoje.


Ígor Andrade

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Neurastenia sorridente


Eu sei quem sou
na madrugada.
Hoje e sempre talvez.
E isso parece muito.

Janela silenciosa
e rua vazia.
Perna quebrada
e braço forte.

O mundo mente.
Sou só.
Sobrevivente
e egoísta.
Faço vista grossa
para qualquer coisa
que não me faça verso.

Eu peço pouco
e por isso desconheço
o sofrimento do amanhecer.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Autorresponsabilidade sem autocontrole


Queria me lembrar de como eu era.
Queria esquecer de como eu sou.
Queria escrever um poema sobre raiva.
Mas não queria sentir raiva do poema.
Acho que hoje não vou escrever.
Sinto pena do que posso me tornar.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Calminex e diclofenaco


Segunda-feira.
Meu corpo dói
e eu procuro um herói
que perdi na infância.

Preciso vomitar a ânsia
de toda dor
que minha cabeça constrói.

O rato rói
a roupa das escolhas
que não faço.

No infinito vazio de qualquer laço
aquele pequeno espaço
entre acordar e não dormir.

Inacabável existir
neste cansaço absurdo,
absorto, quase morto,
quase surdo...
sem insistir no que pede insistência.

A vida vai consumir
cada sonho que não é meu
sem pena e paciência.

Cada sonho que não é meu.

Minha poesia me fodeu.
E não estou pronto.
Nem Galileia
nem Galileu.
Deserto
de certo.
Ponto.

Um acerto no aperto
de cálculos errados.

Algo se perdeu.
Algo me perdeu.
Tudo ferrado.

E o que foi feito?

Faz calor no rosto.
Faz frio no peito.
Faz tempo que não sei o que é coração.

A vida vai.
Este poema, não.

Nascer é um labirinto verde
que acaba com qualquer sorriso amarelo.

Crescer é morrer num castelo
de areia.
Coisa feia!
Caminhar sempre pro mesmo lugar.

Ansiedade causa úlcera
e faz chorar.
Mas eu não choro.
Burrice causa arrogância
e eu imploro
por paz.

Faz pouco tempo
que o muito tempo me faz
de pouco.

O método de exaustão de Arquimedes
num aborto literário de um louco.

Fim.


Ígor Andrade

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domingo, 9 de novembro de 2014

Psiquismos de gaveta


Procuro alguém
neste domingo
que não me entenda
que não me venda
a longo prazo.

Dia lindo.
Sujeito raso.

O mundo é feito de solidão.

("Sol i dão")


Favor nunca esquecer dos dias quentes.
E não deixe de lembrar do frio da alma.

Sou só.
E tenho calma
na minha cama.
Sou o pó
da poesia.
E cada verso me ama
como antigamente.

E de repente
o pouco que eu sabia
faço questão de desaprender.

Toda vida vai crescer
longe de mim.

Procuro alguém neste domingo.
Procuro alguém?
Encontro eu?


Ígor Andrade

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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A luminária cega


Tropeço
na pressa
desta noite.

Não peço
nada
a ninguém.

Eu passo
e sei
o que não passa.

O preço
da vida
é a espera.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

E isso é tudo


O dia sorri lentamente
em uma calçada
de silêncios
meus.

Tudo que enxergo.

O domingo perfeito
não tem ego.
Mas tem vento e calor.
E eu gosto mais do fim de tarde...

Toda arte que tenho
e algumas dúvidas para amanhã.

Sair da caverna ou entender minha escuridão?

Minha barba é minha revolução.
E quem sou eu?

Trinta e três anos de estranhezas e perturbações!

Minha esperança monetária se foi.
Ansiolítico no nervo óptico
sem otimismo ou orientação.

Eu sou?
Os outros, não.

O domingo é minha salvação
e eu nem aceitei Jesus.
A luz
no fim do túnel
quem criou foi Thomas Edison
e Edison sonhava.

Alguns sonham demais.
Outros, são.
Quem sou
eu?

Confusão é nascer.

E para cada sujeito doente
existe uma pessoa demente
que faz psicologia.

Eu queria mais.
Eu poderia mais.
Eu faço de menos.

Nem céu nem inferno
hoje
apenas inverno
que vem
quando toco o chão.

Cheguei a triste conclusão
de que estou onde deveria estar:
vivo.

E isso é tudo.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

"Amandice"


A gente se acostuma a ser sozinho.
Ninho vazio
num mundo cheio de medo.
Tudo na vida demora
e a gente é tão cedo...

O dia parece que começa no fim
e a gente parece nunca entender o meio
de qualquer coisa.
E qualquer coisa
pode causar qualquer dor.
A gente se acostuma a não ver a cor
de nada.

A maior piada
é a própria vida.


Ígor Andrade

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domingo, 26 de outubro de 2014

Trabalhador foi meu avô, que veio do interior com sete "minino" pra criar e uma rapadura no bolso.


Não vai haver mudança
para melhor.
O meu país é um lindo calhambeque
que funciona por puro milagre
(leia-se: deus tem um bolso cheio...).
Estamos no prego.
Pretensão minha acreditar
na justiça humana.
Só a pobreza empobrece.
O rico anda com sua riqueza
e mal aprendeu a escrever direito.
Tudo perdido.
Nada feito.
Todo partido partiu!
Brasil:
a puta que pariu
alienados sem causa.


Ígor Andrade

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Sobre as eleições


Não
fui
votar.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

(Pa)ciência


(Escrevi, mas vou apagar logo menos.)

Começo a enxergar o mundo
diferente.
Com indiferença.

Não conheço o outro.
Nunca conheço o outro.
Não tenho crença.

Mas cresci.
E agora posso entender a escuridão
das pessoas.

Cada um com sua cruz.
Eu com minha poesia.

Ponho o dia
na mesa
antes de amanhecer.
Não sinto fome.
Amanheço a noite
sem dor e nome
para esquecer
quem não me esquece.

A vida merece
algo mais que memórias.

Tudo que existe é presente.
E estou ausente
e sinto.

O que faz do homem
um sujeito homem
é o poder de alimentar esperança.
(Será?)


Ígor Andrade

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sábado, 27 de setembro de 2014

Saturdei


O sábado tem um sossego esquisito.
Cheiro de nada e tudo escrito.
Algo que não passa e nem morre.
Um velho acabado que não corre.

Sou sábado.
Mas quero ser domingo.

Dormindo
até meio dia.
Melodia
dos mais silenciosos poetas.

Eu prefiro as curvas.
Não gosto das linhas retas.

Metas:
não tenho.
Não fui e nem venho.
Mantenho
a ida.

Talvez o mais valioso da vida
seja o rascunho que ninguém consegue ler.
Sobreviver
ao paraíso inventado.
Morrer no inferno ou no inverno
deitado.

O sábado sabe
que não cabe
neste poema.


Ígor Andrade

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Atualizar é um bonito verbo


O tempo parou.
Ela voltou.

Ela voltou.
O tempo parou.

Fazia tempo.
E o tempo fazia.
Todo tempo fazia.

Não tenho mais idade!

Tudo parece saudade.
Toda saudade parece tudo.

O mundo pode ser o mesmo
mas eu mesmo não posso nesse mundo.


Ígor Andrade

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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

monstrum in fronte, monstrum in animo


Agonizo com saúde.
Isso é poesia.
Prazer!
Sem prazer.

Escrever é um ato sombrio
de liberdade.

Mas por que escrevo mesmo?

(Agonia é comum
e talvez eu seja
viciado nisso.)

Escrevo porque sou teimoso.
Insisto em viver uma vida que me mata.
Meu instinto quer tocar o sorriso de alguém.

Digo o que quero dizer
pra gente que não quer saber de mim.
Minha mulher nunca me leu
de fato.
Sobrou um retrato dela na sala.
Meu pai me acha um fracassado.
E não me restou um amigo
desde que fiquei pobre.
O povo não entende do que se trata a poesia.

Sou diferente,
estranho
ou comum demais.

Sinto paz quando assisto "Scarface" ou "O Poderoso Chefão".
O eterno diapasão entre sonho e realidade.

A vida fode a gente.
O poeta fode tudo.
Toda cabeça é vulnerável.
Conquistar é o lema da bandeira
dos conquistados.

Descobri que faço poemas
para espantar o calor de Fortaleza.
Não esqueça:
É do vazio que nasce a porra toda.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Reforma interior


O que eu quero da vida?
É não querer.
A vontade enlouquece o homem.
E o homem quer ser deus.
Mas deus não existe
em homem algum.
Viver é um senso comum
de comodidades. 
E vivo como?
Quando quero demais
me perco.
Quando quero de menos
emburreço.
Se o dia é ruim
eu esqueço.
Mas se a noite foi boa
fico me perguntando o que quero
da vida...
O que a vida quer de mim?
Não posso ser como os outros.
Não quero como eu quero.
Tudo tem de ser sem querer
talvez.
Outra vez
penso ter outra vida
que não me quer direito.


Ígor Andrade

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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Um belo poema sobre a vida


Ainda
não
morri.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

(Sub)consciente


"As minhas capacidades ou os meus talentos são muito limitados. Zero em ciências naturais; zero em matemática; zero em tudo quanto seja quantitativo. No entanto, o pouco que possuo e que se reduz a pouca coisa foi provavelmente muito intenso."   (Freud)


Hoje madrugo simples.

Sujeito homem
de peito aberto
e punho fechado.
Um pequeno alívio sentado
num banquinho quebrado de madeira.

O abismo. O escapismo. A beira
da saia de uma deusa que nunca toquei.
Acho que eu me lasquei 
de desejar o que não se deseja.

A noite beija
a foice da morte.

Não pensei muito.
E não falei pouco.
Talvez seja sorte.

Norte de barbudo
é uma madrugada ventilada.

Não sei de nada.
Mas sei de tudo.
Levei meu demônio para passear
e esqueci o bichinho no meio da rua:
mudo,
no meio da rua.

Tudo que o homem leva
dessa vidinha de merda
é a memória nua
e sem frescura
de uma boa companhia.

Quem diria...
Hoje conversei com Freud.
Hoje eu me fodi.


Ígor Andrade

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domingo, 21 de setembro de 2014

Rua José Vilar


Uma e meia da manhã...

Um bêbado desce a rua
puxando o filho pelo braço,
falando besteira
e se batendo nas paredes.

A rua era calma.
E a vida ficou ridícula.
Calçada sem graça.
Esquina sem dono.

O tempo esqueceu de mim.
Ninguém me avisou que pode amanhecer.

O que é isso tudo?

Perdi a fome.
Mas sinto sede.
E sinto medo
de dormir.

Viver é isso aqui (?).

O bêbado volta.
A criança chorando,
toda suja...
O bêbado mais bêbado.
Caindo aos pedaços.
Não faço nada.
Não quero fazer nada.
Vejo a desgraça passar.

Não sei
e nunca vi
este sujeito.
Mas acho
que esta criança
sou eu.


Ígor Andrade

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Olympia


Os monstros não dormem.
Os olhos não se fecham.
O mundo pouco sabe.
A noite não dorme.

Os cegos nunca acordam.
A rua não se limpa.
A janela não se quebra.
A vida não passa.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Café gelado e frio na mão


Passei algumas horas
pensando no que os outros fazem
para viver.
Para eu não morrer talvez
de tédio.
Pensar e observar as pessoas
é mais veneno que remédio.
E eu nem sei direito porque estou escrevendo isto.

Dormir cedo para acordar cedo
e passar o dia reclamando da vida.
Dormir pouco e ganhar muito
para morrer infeliz.
Acordar todo dia
sem tocar na cicatriz
do passado.

(Tenho passado mal.
Obrigado!)

Ando escrevendo pouco sobre o futuro...

A vida de repente nos meus olhos
me cega e não diz por quê.
Absorver
cada pequeno desejo
de apenas parar com tudo
e tentar sorrir.

Não quero dormir
hoje.

Eu acordo todo dia
com aquele peso medonho na cabeça.
E faz tempo que não ganho um abraço.
Seja lá de quem for.

O meu bolso furado desata o laço
de qualquer amizade.
Se não vai cedo
já foi tarde.
E é duro assumir isso.

Toda dor que sinto é um compromisso
e é diário
e dói.
Um abismo mental
que não tem fim.
Me tornei uma máquina de guerra
que não consegue chorar.
E é ruim
ser eu.

A vida me deu
pouca paciência...

Não entendo os outros.
Não me entendo nos outros.
Os outros me olham diferente.

Não quero sentir pânico de novo
mas também não quero o presente.
E agora?


Ígor Andrade

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domingo, 14 de setembro de 2014

Sem carona


O dia de hoje não teve graça
nem glória.
Não vi sorriso de ninguém.
Fico na janela do quarto
vendo o domingo passar.
Eu não passo bem.
Faço muito mal para minha pessoa.
Meu tempo não anda, nem voa.
Estou estacionado nos meus trinta e três anos.
Sou outro. Sem outra.
Cheguei num ponto que já não me importo mais...
Não consigo ver meu futuro.
Não quero olhar para trás.
Estou num presente
ausente.
Bolso vazio e cabeça doente.
Tudo é partida.
Não posso tocar minha vida
do jeito que eu quero.
Não posso tocar em qualquer vida
do jeito que deve ser.
Sou um fantasma moderno
que vive com medo de morrer
de novo
aos pouquinhos...
Sou um poeta covarde demais
para não escrever sobre si mesmo.


Ígor Andrade

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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Quase quarta


É quase quarta
no meu quarto.
Tudo sou eu.
Ego sem eco
no inferno da solidão.
Hoje sim
mas ontem não
vi o tempo passar.
Como posso viver desse jeito?
Calor maldito na cara.
Dor no peito.
Tudo (não) passa
no que já é passado.
Tenho caminhado
com um peso medonho nos ombros.
Sinto a presença de alguém.
Nada e ninguém
é o que tenho.
Eu nunca fui
e nunca venho
sem poesia.
Passa a noite.
Passa o dia.
E eu só quero voltar pra casa.
Um pássaro sem asa
nunca sai do ninho.
É quase quarta
no meu quarto.


Ígor Andrade

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sábado, 16 de agosto de 2014

Escrevi hoje mas deleto amanhã


O amor mora
em todo sujeito
sem jeito.
De peito
aberto.
Tudo perto.
Passo longe.

O amor é aonde
sem ainda.
A ida.
Coisa linda!
Sem volta.
Se não prende
solta.

Uma dança estranha.
Sem graça.
Se não é presa
é caça.

Pé de valsa quebrado
na esquina.
O amor é a cocaína
do pobre.

O amor vive na pausa
e descobre
que cada coisa
não tem causa.
E nem tem casa.

(Meu amor tem asa,
mas não voa!)

Vou pra rua... à toa...

Porque o amor mata.
Se não mata,
maltrata.
E faz a gente desistir de amar.
Amor nenhum tem lugar
mas tem tempo.

Tem tempo...

(...)
O amor não é
coisa moderna.
O amor não é
Roma Antiga.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Diário não diário


As primeiras horas do dia começaram à tarde. E eu acordei. Reconheço que sou um sujeito nada cedo. Abri um olho de cada vez. Hoje não tive medo (da morte) e nem fome. Sobrenome: Não sei direito o que sentir. Não vou mentir (porque nunca minto) e muito menos medir, o que não se mede - o que não se mente. Hoje o dia, já no meio, parece que não vai acabar (porque nunca acaba). Moro perto do mar. No meio de gente mal educada. Gente que acha que não sirvo pra nada, e morre de medo da minha barba de mendigo. Faço pouco pelo mundo, mas digo... tudo o que sinto. Não me sinto bem. Também não me sinto mal. Sinto uma coisa que não se explica. Mas o sorriso de minha mãe descomplica até as equações mais obscuras da NASA. Minha mãe deveria estar sempre em casa... quando acordo. E eu acordo só pra saber de onde venho. De onde veio... minha poesia. Para aonde vou nunca importa. Nem a porta que se fecha quando abro a janela. A vida pode ser bela, quando se conhece a verdade de que cada dia é o último. E isso não é pessimismo. Nem eufemismo. Determinismo é para os fracos. E cada ser humano só precisa sobreviver. O resto é uma piada contada por um velho gago que só fala inglês. Um dia de cada vez... sem confundir as horas aleijadas pelo desânimo. Insatisfação não é saturação. E eu sei disso, enquanto não sei de droga alguma. Ansiolítico é outro papo. Engolir sapo é uma profissão de carreira internacional. E ninguém me interna. O que os outros sabem de mim? Por que não nasci numa família italiana? Quanto realmente vale o seu trabalho? Engordamos na tristeza ou entristecemos com a gordura? O que significa sobriedade para uma criança surda? Tenho perguntas demais. Eu nunca cresci.
...
Pensei que nunca mais escreveria, mesmo escrevendo todos os dias...


Ígor Andrade

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sexta-feira, 11 de abril de 2014

Warehouse


Para o amigo-irmão-herói Magela Osterno.


Metade de mim
quer ser
como a metade de você.

Um homem do tempo
outro.
Sujeito sem tempo
certo.
Artista do tempo
próprio.

Sem ódio, orgulho ou ópio.
Viver para criar.

Todo ouvido quer caminhar
e você sabe disso.

Metade de mim
quer ser
como a metade de você.

Uma metade que esconde
metade da arte
embaixo da cama.
Um infeliz que ama
o som da vida.

Um filósofo magro e cansado
sem volta e sem ida,
que passa os dias encarando o escritório...

A música é o território
dos fortes silenciosos.

Metade de mim
quer ser
como a metade de você.
E ponto.

Estar sempre pronto
para acreditar
na esperança das melodias.


Ígor Andrade

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O Zé Ninguém


Não tenho dinheiro.
Mas vivo bem.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 9 de abril de 2014

Bem-te-quis


A vida plena.
A vida sem pena.
O vôo.


Ígor Andrade

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terça-feira, 8 de abril de 2014

Defeito constitucional


Não vou mais me cobrar.
Quem cobra acaba não fazendo.
É mais uma questão de ego
do que uma gestão de ser vago.
Porque depois que esvazia o lago
da noite
eu simplesmente apago
a trilha sofrida
que eu não fiz.
A madrugada é minha meretriz.
E eu não vou mais me olhar.
Não quero saber quem sou
(tenho medo).
Muito menos saber quem fui.
Meu silêncio dilui
todo ódio que sinto
do que não escrevo.
Um covarde em alto-relevo
assim como todo mundo.
E tudo que é imundo
habita o mais cego e paterno
sentimento de criar
o que não nasce da gente.
Eu não minto.
Mas você mente.
O que é a verdade?


Ígor Andrade

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domingo, 23 de fevereiro de 2014

A causa da casa


A rua
quer calar
o que sinto
mas o que sinto
não quer encontrar
a rua...


Ígor Andrade

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Agnosticismo alheio


O domingo
é a única oração
que sei fazer.

Não peço nada
ganho pouco
e acredito cada vez menos
nos deuses dos outros.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Survivor


Sempre que acordo
lembro que não devo viver
a vida dos outros
e penso em esquecer a morte
que é minha.

Isso deve ser uma coisa boa.
Deveria.

Nada nesse mundo
me interessa mais
que a sobrevivência.


Ígor Andrade

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A (g)rua


Os muros da madrugada
sabem de nós
mas calam.

É difícil viver sem olhos.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Moleza na alma


O vazio firme
é uma linha reta
que entorta
o homem mais duro.


Ígor Andrade

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O sol não veio


A solidão não te mata
nem te fortalece.
A solidão apenas te vence.
Só te vence.

E nem é uma questão de perder
algo ou alguém.
A vida se resume
na incompetência
de nunca estar completo.

Um dia você acorda no meio de uma noite fria e chuvosa
e percebe
que passa metade da vida sozinho
e a outra metade querendo ficar sozinho.
Isso pode ser triste.


Ígor Andrade

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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Homemade


A cama
é um equívoco
que te aceita
mas não te faz sonhar.

Para todo poeta,
dormir
pode ser um crime.


Ígor Andrade

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Um poema de hoje cedo


Amanhecer parece um erro.
A noite acaba
e eu me resto.
Toco o dia
com um olhar cansado.
Não me testo
o suficiente.

Nunca me sinto presente.

O futuro é uma rocha
de passado doente
que eu preciso lapidar
com as mãos.
E isso dói.


Ígor Andrade

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sábado, 15 de fevereiro de 2014

Termine o poema você


A verdade está
numa tarde nublada
em que pouco se diz
e tudo se sente.

O café doce
é minha semente
e não espero nada da noite...


Ígor Andrade

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Poema de criança


A palavra
é meu brinquedo.
Sinto ódio
e sinto medo.
Não tenho modos
e posso sentir paz
em não brincar.

O mundo soluça as horas
mas agora silencio a fome.
A palavra tem outro nome
quando não sei o que pensar.


Ígor Andrade

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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Não mais


Não quero só a beleza.
Não quero a beleza
                    da identidade.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Decifre


Quem sabe
o que sonha
não sente
o que cala.

Quem sente
também apanha
e não sabe
o que fala.


Ígor Andrade

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Hércules de bolso vazio


Me canso com qualquer coisa.
Me canso de qualquer coisa.
E qualquer coisa é sempre o mesmo cansaço.

Forte como um touro.
Frio como o aço.
Não penso.
Eu paro.
E passo.

Cansei disso também.

Me sinto um pobre diabo
que nunca vai aonde quer
e quem eu quero nunca vem.

Ninguém tem
um cansaço desse.


Ígor Andrade

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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Ponto


O ideal
de ser
é não estar.


Ígor Andrade

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Desvario


A tarde é quente
e eu sou frio
me afoguei no rio
porque sou demente.

O cão que sente
a vida por um fio
desconhece o brio
da solitária serpente.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Irmão do meu irmão


Para o amigo Daniel Maia.


Todo homem é livre.
Mas todo homem se prende.
O homem é um bicho
que fala, anda e não aprende
a conquistar o insuportável.

Aliás tudo parece inexpugnável
quando não se sabe o que procurar.

Devemos caminhar.
Nunca correr.
E socorrer é preciso.
Evoluir do dispensável ao indeciso
e entender toda solidão.

Homo sapiens que vive em vão
não alcança a plenitude de espírito.

O âmago do ser
de não ser empírico
é a superfície que nos completa.

Eu poderia ser advogado.
Você poderia ser poeta.
Toda vida é uma condenação de existir no passado.


Ígor Andrade

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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Fênix do Nordeste


O que é mito?
O que é monstro?
O que eu mostro?
O que eu minto?


Ígor Andrade

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Necessity


My house
is
my cause.


Ígor Andrade

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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Cavalo dócil ao freio


O tempo distorce
os fatos.
Os atos
distorcem o tempo.

Todo lamento
nasce de um relógio quebrado.
E todo relógio quebrado
é um relacionamento
que esqueceu de funcionar.


Ígor Andrade

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Um poema de hoje cedo


Amanhece.
Anoiteço.
Ela esquece.
Eu esqueço.
A cor aquece
a dor do berço.
Amadurece
o que adormeço.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Reumatismo poético


E se a vida
não for simplesmente
uma sequência aleatória
de acidentes diários?

E se eu
com esta vida que tenho
não saiba significar
qualquer determinismo?


Ígor Andrade

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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Desaprendo os fins ensinando inícios


Navego
no meu abismo.
Não nego
meu egoísmo é um prego
torto.
Nunca me vi
tão humano
e morto.
Também não encontro
meu ego.

Fim.


Ígor Andrade

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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Sempre ou quase de vez em quando


O poema certo
toca
a mulher errada.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Um e oitenta e um


Sono sobrando.
Sonho sobrando.
Eu me falto.


Ígor Andrade

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Porque a segunda é bem chata sem ela


Nem tudo que vejo é verdade.
Nem o pouco que sei é mentira.
O ouvido sabe quando o olho vira
e todo sentido versa o inverso da gente.

O mundo é o que o homem sente.
Mas, amando, é a mulher que constrói.
Tudo que é poesia nasce do útero e dói.
A alma rói
o que o rato não quer.

O prato vazio esquece a colher.
E o último a fechar a janela
que se lembre da luz.

O que me reduz
me enobrece.

E se eu soubesse
descrever minha saudade
certamente seria um sujeito pior.

Saudade é o melhor
que temos.

O que não vemos
é o silêncio do outro.


Ígor Andrade

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sábado, 18 de janeiro de 2014

Devoto do falcão peregrino


Para cada pássaro.
Para cada asa.
Para cada vôo.
Um pouco de mim
aqui
sem ar.


Ígor Andrade

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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Quarto andar


Sirvo-me daquilo
que não me pertence:
a noite.
Açoite
que não me vence
a preguiça.

Todo escritor tem um motor que enguiça
mas depois se ajeita.

Ninguém se sujeita
a escurecer sozinho.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A ida


Todo desafio
deforma
a vida.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Ou do futuro


Hoje
eu não quis
escrever.

Escrever
é um querer
do passado.


Ígor Andrade

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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O colecionador de facas


Meu bolso vazio
é uma oficina
que perdeu o martelo
pro fantasma de um desocupado.

Tudo que penso parece confuso
e eu não ligo pro que é pecado.

Todo poema passado
é uma roupa velha
que não consigo jogar fora.

Não consigo jogar bola
porque minhas calças afrouxaram.
Mas eu não emagreci.

Hoje mesmo eu nasci
sob a égide da comilança.

Encher a barriga cansa
a cabeça.

E pra que eu nunca esqueça
que quero o que não posso pagar...
planejo, desenho e construo
coisas que não consigo usar.

Há sempre um tipo de pobreza
que me torna um homem melhor.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Any salvation (only one attempt)


Life moves slowly.
The time does not know who runs.
The goodness rescues the poets of Stone Forest.
And all pain has one or two silent steps.


Ígor Andrade

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Nuvem. Não vem.


O céu de hoje
não tem estrelas.
Eu não abri meus olhos.


Ígor Andrade

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Eu vi


O homem moderno
anda anestesiado.
O tempo é o aleijado
de sempre.
De sempre.

Hoje a rua perdeu a graça.
Um maldito chuta um vira-lata
mal disfarça
e sorri.

Sinestesia moribunda.
O pôr do sol afunda.
Tudo longe de mim.


Ígor Andrade


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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Para Dona Rejane e Dona Lucivanda


Ser mãe
é um sermão
perfeito.

É ouvir o silêncio
e ter jeito
de ainda assim calar.

É a arte de criar
um mundo
antes do filho.
É parir um andarilho
que não sabe caminhar.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Enquanto o cuscuz esfria


Cada parede branca
é uma companheira quieta
de minha ignorância.

Tudo aqui dentro grita
e o mundo lá fora é ânsia.

Quem sabe mais de construção
(do ser)?

Ninguém impede ninguém
de crescer.

Tudo que nos pára
tem um porquê
de quarto sujo.

O melhor amigo do homem
é um caramujo.
Que carrega uma concha
cheia de passado.


Ígor Andrade

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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

As folhas


Lugar sagrado é a varanda.
Onde se vê a rua
e se esquece a casa.

Tudo é uma cadeira preguiçosa.
E a noite se encosta numa arrumação
de solidões.
Repouso de multidões
na gente.

No colo de Apolo
todo cão desenvolve teorias
sobre a criação do universo.

No fim
é a brisa que conta.


Ígor Andrade

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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Alca(teia)


Esta noite sonhei
que era um lobo
perdido na chuva.

Procurava comida
mas, claro, só encontrava água.

Desconhecia minha matilha
mas também não estava sozinho.

Esta noite sonhei
que era um lobo
que não sabia caçar
mas tinha aprendido a uivar muito cedo.


Ígor Andrade

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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Lavanda


A rua calma
me acalma.
É como se não precisasse de gente.

Sem buzina ou fumaça
o tempo passa
cuidadosamente.

Eu sou um cão velho
que evita a esquina
enquanto procura uma varanda.


Ígor Andrade

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Porque leio Neruda


Dedico meu desinteresse a primeira segunda-feira do ano.
Onde acordei sem minha mulher
e decidi caçar meu apetite por aí.

Não quis sair de casa.
O pássaro sem asa
gosta do ninho que sua imaginação construiu.
O mundo se exauriu
da gente
mas aqui possuo o infinito no meu quarto.

Meu joelho dói
e minha preguiça corrói
gerações de desocupados.

O futuro é um passado
que nunca existiu.

Hoje
gostaria de adiantar as horas
e me exercitar um pouco.
Mas tenho medo da morte.
Hoje.


Ígor Andrade

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sábado, 4 de janeiro de 2014

Presta atenção


O sábado é um pintor estressado
que pinta o que não quer
pra gente que nunca viu.
Não decide que cor usar
porque não entende a tela branca.
Não sabe o que pensar
e nem o que é inspiração.
Confunde expressionismo abstrato com putaria de boteco.
O sábado é um cacareco
que desistiu da arte.


Ígor Andrade

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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Herói sem face


Eu moro no bocejo do meu quarto.
Onde enterro os sonhos mais impossíveis.

Amanheço a raiva da janela sem cortina.
Porque vivo a escuridão poética dos fracassados.

Aqui já fui até escritor.
Vendi livros e dei autógrafos.
Agora construo coisas
que provavelmente nunca usarei.
Acho que eu sempre quis ser mecânico.

Tenho quatro reais na carteira
e umas poucas moedas no bolso da mochila.
Não tenho amigos
nem inimigos
e só uso pijama escuro.

Meu quarto mora em mim
como um templo perdido da Índia
mora nos ratos.


Ígor Andrade

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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Apoio de frente


Não que nos falte memória
porque falta inteligência.

Não que nos sobre idade
porque sobra vaidade.

Não que seja tudo fato
porque logo o feto some.

Não que se perca a verdade
por conta do sacrifício.

Sim... aprendi que todo ofício
é mentiroso
e o mundo só pode ser feito
de distrações.

Fim.


Ígor Andrade

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2014


Aquela arrumação de sempre.
Minha vontade de não fazer nada.

Enquanto o povo mal educado faz barulho,
o ano novo não liga pro meu silêncio.

Por que devo pensar diferente que este agora pode ser melhor?
O que eu quero da vida que não tenho?
Quem no mundo tem uma mulher como a minha?

Bebo minha cerveja com um sorriso amarelo.
Lamento as cifras gastas com fogos de artifício.
O povo é uma manada que não quer mudar.

Meu ano começou faz tempo.
Todo tempo é relativo mesmo.
Meu relógio é a poesia.
E a poesia não tem hora.

Preciso criar muito mais.
Sou o cara que nasceu no lugar errado.
O dia de amanhã salgado
antes da uva doce da meia-noite.


Ígor Andrade

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