sábado, 28 de dezembro de 2013

O sábado sabe


Me sinto uma criança idosa
que faz poesia pra ninguém ler.
(A vida deve saber
mais dessas coisas.)

Caminho por aí
procurando algo que não sei dizer.
Sento numa calçada qualquer
esperando o frio de sempre chegar.

Nunca sei direito o que pensar.
A vida vai passar
e nenhuma escola jamais ensinou
o que eu queria aprender.

O que é meu corpo além de mim?

Onde fica a caxemira dos idosos?

Às vezes sinto que numa casa pequena
todo mundo é grande
e todo mundo esconde
sua verdadeira casa.

Um pássaro sem asa
sou eu
quando penso no dinheiro
que quero ter
só para não saber gastar.

Até lá me visto com a poeira do meu quarto
e não ligo pra moda alguma.

O desespero não entende o santo sudário
nem o monstro no armário
da despensa do apartamento antigo.

Não ligo mais para nada
até o meu filho nascer.
O mundo vai crescer.
Eu vou diminuir.

O crepúsculo
o minúsculo
o músculo
o menisco.
Escrever é meu único risco
sem conta.

Uma folha em branco aponta
pro horizonte que devo seguir.


Ígor Andrade

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Um comentário:

mARa disse...

Assim é, tantos sentimentos embaralhados dentro de um antigo quarto, onde habitam fantasmas no armário, as vezes essas metáforas são tão nossas, e viram letras e versos, isso é o Poeta, essa é a poética da vida.

abço fraterno!