terça-feira, 8 de outubro de 2013

Tumulto


Ao acordar, a vista de um objeto evoca uma sensação desconfortante. Instante em que não se sabe quem dorme de fato. A pedra no sapato do sonho. Eu durmo enfadonho. Deito na estante; prateleira última. Ninguém me alcança. Anterior a isso: o interior dos outros. Vejo pouco. Sinto muito. Sou míope. Avisto o objeto de longe-tão perto. Parto a cara de espanto na porta. Lembro da menina morta. E lembro que só pago à vista o que não preciso. Não sou indeciso, mas sinto fome toda hora. Acordar é estranho. Agora é escrever. Prato frio enche a barriga do mesmo jeito. Prato quente come quem quer. Todo homem precisa de café. Minha xícara está vazia.


Ígor Andrade

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5 comentários:

Fabio Rocha disse...

Tive um pesadelo horrível hoje às 3 da manhã. Esse poema me irmanou. Abração, manobrow

Marcelino disse...

"Vejo pouco" e "sinto muito": porra! Esse é o Alberto Caeiro do Pessoa do século XIX. Mas vê só não estou te ligando a fatos literários do passado, como se tu não fosses importante aqui e agora. O que eu quero frisar é tua importância atemporal nessa nossa lida poética.
Um abração, meu preto: gosto de teu verbo.

Ígor Andrade disse...

Mestres!

Vieira Calado disse...

E se eu gosto de café... meu caro!
Forte abraço!

Ígor Andrade disse...

Abraço, Vieira!